Opiniao

A coronada saudita no petróleo

Os sauditas decidiram deitar mais combustível em cima do pânico viral.

Enquanto mercado e sociedade debelavam-se com o impacto suplementar do alastramento do Covid-19 ao ocidente, o regime saudita resolveu regar o fogo com um dilúvio de petróleo. O segundo produtor mundial resolveu iniciar uma guerra de preços devido à falta de acordo com a Rússia para orquestrar precisamente o contrário – um corte de produção que suportasse a cotação do barril. O consenso de mercado foi apanhado completamente em contrapé o que despoletou uma queda livre no preço do barril na sessão de segunda-feira. A cotação chegou a cair mais de 30% no dia, algo inédito até durante os períodos mais negros da crise de 2008. Os sauditas decidiram deitar mais combustível em cima do pânico viral.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) reuniu no passado fim de semana com a Rússia – o já chamado OPEP – para negociar cortes de produção com o objetivo de suportar o preço do crude nesta altura de fragilidade económica. Os Russos, que nos últimos anos têm estado bastante alinhados com os sauditas nesta gestão, decidiram que era para já precipitado avançar com reduções, preferindo ir analisando o desenrolar dos impactos do vírus. O regime saudita ficou altamente desagradado e partiu para uma retaliação drástica ao anunciar logo no Domingo um enorme aumento de produção diária dos cerca de 9.7M para os 12.3M de barris. Este valor fica inclusivamente acima da capacidade sustentável do reino – estimada em torno dos 12M diários – numa clara sinalização que estão dispostos a usar os próprios inventários para inundar o mercado. Como se esperava, a Rússia respondeu, anunciando os seus próprios aumentos de produção. É preocupante verificar que ambos os países dispõe de reservas financeiras para aguentar durante alguns anos a provável redução de receitas do petróleo, fator que dificulta um volte-face a curto prazo. A próxima reunião da OPEP está marcada para 9 de Junho e até lá é difícil antecipar uma solução em que ninguém perca a face.

Este ato de bullying não poderia vir em pior altura. O choque deflacionista impõe mais um enorme desafio aos bancos centrais desesperados por amenizar os impactos económicos do Covid-19 com as poucas ferramentas monetárias que lhes sobram. Em períodos normais, um choque de oferta no petróleo representaria uma transferência de riqueza entre países produtores e países consumidores. Nos anos 70, o choque foi do lado da restrição de oferta o que catapultou o preço beneficiando produtores à custa de consumidores. Infelizmente a lógica inversa dificilmente se irá materializar nesta fase, pelo menos a curto prazo. Com a procura de combustível em abrupta contração devido às (necessárias) medidas de contenção viral, a benesse de preços baixos terá um efeito positivo muito limitado para já.

Estamos perante uma crise evitável que vem reforçar a ideia de que a Arábia Saudita não é um parceiro de confiança no plano global. Até o muito aliado Trump pode vir a perceber isto a médio prazo, caso esta guerra de preços comece a desencadear falências no altamente endividado setor de petróleo de xisto americano.

Nota final para a crise de saúde pública que Portugal arrisca. Alerto que o sistema português não tem recursos suficientes para suportar uma pandemia sem gravíssimos custos humanos. Apelo à responsabilidade de todos para seguir as recomendações de contenção pelo menos durante um mês.


*Gestor de fundo de investimento macro