Internacional

Há quem tema mais Deus que a covid-19

Milhares de muçulmanos juntaram-se em peregrinação na Indonésia, contra as recomendações das autoridades. Já na Coreia do Sul o epicentro do surto continua a ser uma igreja cristã.

Da Ásia recebemos as melhores lições de como reagir ao covid-19, de países como Singapura, Taiwan ou a Coreia do Sul, cujos governos e responderam rapidamente e as populaçoes, veteranas de outros surtos infeciosos, cumpriram com os cuidados solicitados. Mas também alguns dos piores exemplos, como no Irão e Indonésia, onde multidões de fiéis têm violado o cancelamento de serviços religiosos devido à covid-19, à medida que se aproxima o Ramadão.

“Temos mais medo de Deus”, disse Mustari Bahranuddin, organizador de uma peregrinação juntou nove mil muçulmanos esta quarta-feira, em Gowa, na Indonésia. No quarto país mais populoso do mundo já houve 19 mortes e 227 casos registados do novo coronavírus – o número real deverá ser muito maior, dado que foram feitos menos de 2 mil testes.

Prevê-se que cheguem muitos mais pessoas a Gowa nos próximos dias, vindas de países como a Tailândia, Arábia Saudita e Índia, dias após um evento semelhante na Malásia ser correlacionado com mais de 500 novas infeções. “Como somos humanos, tememos a doença, a morte”, explicou à Reuters Bahranuddin. “Mas há algo mais que o corpo, que é a alma”.

O desprezo pelos cuidados recomendaos quanto ao covid-19 não é um feudo exclusivo de fiéis muçulmanos, atenção. Na Coreia do Sul, que parece ter estabilizado o número de novas infeções, o epicentro do surto foram grupos cristãos, como a misteriosa Igreja Shincheonji: os seus membros compõe à volta de três quintos dos casos registados. Inicialmente, o grupo apelou aos fieís que continuassem a participar nas suas missas massivas – o dirigentes da igreja acabariam por pedir publicamente perdão por isso.

Há muito a Igreja Shincheonji se queixa de descriminação, e, como tal, mantém secretas as suas identidades dos seus membros, dificultando a identificação dos infetados nestas missas. “Torna impossível para outros ser cuidadosos e entrar em quarentena”, queixou-se à NPR Shin Hyun-uk, diretor de uma ONG que facilita a saída desta seita.