Opiniao

A emergência dos governantes

Graças a Deus que os portugueses são muito superiores aos políticos que nos representam.

Marcelo, que esteve desaparecido em combate nas duas últimas semanas, regressou ontem ao mundo dos vivos e sentiu necessidade, de imediato, de fazer prova de vida, pelo que resolveu assinar um decreto que nos obriga a todos a fazermos exactamente aquilo que, por iniciativa própria e voluntariamente, já estávamos a fazer há quase uma semana.

Graças a Deus que os portugueses são muito superiores aos políticos que nos representam, razão pela qual, desde cedo, e depois de algumas peripécias mais irresponsáveis, mas prontamente corrigidas, adoptaram as medidas indispensáveis para que o coronavírus possa ser estancado.

E mais uma vez os portugueses se adiantaram aos seus governantes, optando, conscientemente, em permanecer nas suas habitações, apenas não prescindindo das deslocações comprovadamente necessárias.

Assim sendo não se compreende a oportunidade deste decreto presidencial, ratificado pelo governo e pela assembleia da república, porque nada acrescenta às práticas de contenção do vírus que já se encontravam em vigor. Pura e simplesmente vem-nos obrigar a procedermos da forma a que, voluntariamente, já nos tínhamos entregue e que, regra geral, estava a ser cumprida pela generalidade da população.

Se a intenção de Marcelo foi a de assumir uma autoridade em que já ninguém acreditava, puxando de uns galões há muito poeirentos por falta de uso, então deveria ter ido mais longe, impondo restrições absolutamente indispensáveis para que possamos dormir descansados quanto à eventualidade da doença vir a ser rapidamente erradicada do território nacional.

É manifestamente incompreensível que nos obriguem a permanecer no interior das nossas casas, ao mesmo tempo que mantém as fronteiras aéreas abertas para a maioria dos países onde o vírus do covid-19 se tem espalhado com maior virulência.

Na verdade o governo de Costa entendeu por bem cancelar os vôos para quase todos os países fora da União Europeia, por sinal aqueles que menos têm sido afligidos pelo vírus mortal, mas autoriza os provenientes do espaço europeu comunitário, onde, precisamente, se encontra o epicentro da doença que se pretende combater.

Chama-se a isto esperteza saloia!

Até as excepções aos vôos internacionais fora da UE, com o argumento de serem os países onde existem maiores comunidades portuguesas, são inexplicáveis, porque, em alguns desses, o vírus espalha-se de forma incontrolada, razão pela qual se justifica, mais do que nunca, uma apertada restrição a quem daí viaja e nos pretende visitar.

Há uns dias alguém postou numa rede social um comentário que bem descreve esta incoerência governamental: contava ele que a sua Avó, sempre que saía de casa para ir às compras, trancava todas as portas a sete chaves, para que os ladrões aí não conseguissem entrar, mas deixava as janelas abertas para que o ar exterior pudesse refrescar a habitação.

É justamente isto que os nossos governantes, em quem depositámos a nossa confiança para dirigirem os destinos do País com sabedoria e competência, nos estão a fazer. Nós, portugueses, não podemos sair de casa, mas pelas nossas fronteiras qualquer portador da doença pode penetrar sem constrangimentos!

Se Marcelo não se preocupasse somente com afectos, necessários, bem entendemos, para uma folgada reeleição como anseia, e se se empenhasse verdadeiramente também em apontar soluções que resolvam com eficácia e eficiência os nossos problemas, a sua decisão deveria ter visado igualmente todas as nossas fronteiras, terrestres, marítimas e aéreas, fechando-as por completo, abrindo mão apenas de excepções muito restritas e fundamentadas.

E aos poucos a quem fosse autorizada a entrada no País deveria ser imposta uma quarentena obrigatória e realista, mas não como na Madeira, em que as pessoas são mandadas para casa com a obrigação de respeitarem o período da quarentena, não havendo, posteriormente, nenhum controlo eficaz sobre essa medida. Os viajantes deverão, sim, serem recolhidos de imediato, e antes que convivam seja com quem for, em instalações governamentais apropriadas para esse fim.

Só com a adopção deste procedimento se poderão justificar os sacrifícios que estão a ser exigidos a toda uma comunidade, salvaguardando, a médio prazo, o seu bem-estar físico.

Tudo o resto é folclore!

Desta crise que estamos a atravessar resta-nos a consolação de podermos vir a retirar ensinamentos para o futuro, que nos permitam viver com maior qualidade de vida. Uma parte muito considerável dos trabalhadores não interrompeu a sua laboração, passando-o apenas a fazê-lo a partir de casa.

Talvez as empresas aprendam com esta experiência e cheguem à conclusão de que o trabalho presencial, na maioria dos casos, não é fundamental, obtendo-se resultados semelhantes, e provavelmente ainda mais positivos, quando efectuado à distância.

Todos temos a ganhar.

Em primeiro lugar as famílias, porque poderão conviver mais entre si e aos filhos será oferecido um apoio paternal e maternal mais próximo, o qual vai escasseando assustadoramente, com as nefastas consequências daí resultantes para a educação das novas gerações.

Para as próprias empresas, que com a implementação do trabalho à distância verão reduzidos os custos, principalmente os de funcionamento e manutenção das instalações.

E para todos nós, atendendo a que poderemos respirar um ar mais puro, porque o ambiente será menos poluído, e nos poderemos mover com mais facilidade, sem nos atropelarmos uns aos outros.

Esta é uma batalha em que Marcelo se poderá empenhar decisivamente. Se nela tiver êxito, talvez consiga recuperar parte do prestígio perdido.

 

Pedro Ochôa