Economia

Vieira Monteiro. O banqueiro que dedicou a sua vida ao setor

 1946- 2020   

Morreu António Vieira Monteiro, aos 73 anos - a poucos dias de fazer 74 -, a segunda vítima mortal em Portugal da covid-19. O chairman do banco Santander Totta encontrava-se internado no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Terá contraído a infeção em Itália, onde esteve numa estância de inverno.

Vieira Monteiro deixou o cargo de presidente do conselho de administração da instituição financeira em 2019, dando lugar a Pedro Castro Almeida. Nessa altura, considerou que deixava o cargo com o banco «preparado para continuar a enfrentar o futuro» e lembrando que, quando assumiu a liderança, a instituição «não era quase nada».

Esteve sete anos como CEO do Santander, ocupando o lugar que tinha sido deixado vago por Nuno Amado que, nesse ano, saiu para presidir ao BCP, em substituição de Carlos Santos Ferreira. «Ao fim de sete anos, vou continuar no banco. Vou ser presidente do conselho de administração e, portanto, vou continuar no banco. Acho que já tenho a idade de deixar a parte executiva, já que vou fazer 73 anos […] mas aquilo que hei de dizer é que há sete anos, quando entrei, o banco não era quase nada», afirmou nessa altura.

António Vieira Monteiro deixa no seu currículo a compra de dois bancos: primeiro, o Banif, por 150 milhões de euros, em dezembro de 2015; e, mais tarde, o Popular, por um euro. Estas duas aquisições transformaram o Santander Totta num dos maiores bancos a operar no mercado português, fazendo concorrência ao BCP em termos de dimensão.

António Vieira Monteiro, nascido em 21 de março de 1946, era licenciado em Direito e o seu percurso profissional esteve fortemente ligado ao setor da banca durante várias décadas, tendo «contribuído de forma inequívoca para levar o Santander a uma posição de grande destaque no panorama português».

Entrou no sistema financeiro em 1970, no Banco Português do Atlântico, onde ficou até 1974, ano em que passou a integrar os quadros do Crédito Predial Português (CPP). 

Entre 1976 e 1984 ocupou um lugar na administração do CPP. De 1985 a 1989 integrou o BES e a administração do Libra Bank (Reino Unido). Em 1989 começou a sua experiência na Caixa Geral de Depósitos (CGD), que se prolongou até ao fim do milénio.

Naqueles 11 anos ocupou o cargo de presidente executivo da Caixagest (1990-2000), foi presidente executivo do Banco da Extremadura, Banco Luso Espanhol e Banco Simeon (1991-1996), presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino (1996-1999) e vice-presidente da CGD (1993-2000).

Em 2000 assumiu o cargo de membro da administração do CPP e assistente da comissão executiva do Banco Totta & Açores.

Reações 

«Esta manhã perdemos António Vieira Monteiro, um querido amigo e um grande líder e profissional, Presidente do Conselho de Administração do Santander em Portugal e até recentemente nosso CEO. António juntou-se ao Santander há muitos anos, fazia parte da minha equipa desde o início e esteve connosco, em diferentes cargos, durante 20 anos», reagiu Ana Botín, presidente do Grupo Santander.

Um momento de tristeza vivida internamente pelo banco. «Esta manhã, quando falei com Pedro Castro e Almeida, o nosso CEO em Portugal, e mais tarde com a sua filha Rita, senti pessoalmente a real dimensão desta crise. É um dos momentos mais tristes que já tive no banco. O António deixou-nos cedo demais. A sua filha não poderá estar presente no funeral, uma vez que também ela está infetada pelo vírus. Nem eu nem os meus colegas - ainda que estejamos saudáveis - também não poderemos estar presentes», disse em comunicado. E acrescentou: «Tenho vários momentos memoráveis com o António. Ele era sempre prudente e decisivo. Um verdadeiro gestor do risco, era exímio nisso. Tivemos muitas conversas em fins de semana, e era nessas alturas em que ele me dava conselhos sobre uma oferta ou uma aquisição de um banco, ou sobre como apoiar um grande cliente. Ele sabia como apoiar clientes e a sociedade, bem como cumprir com os acionistas. A sua prioridade era a sua equipa e ele estava sempre lá para a apoiar». Pedro Castro e Almeida destacou a «perseverança» de António Vieira Monteiro, lembrando o seu contributo não só para o sistema financeiro como também para o próprio Santander. «Durante a liderança de António Vieira Monteiro, da qual tive o privilégio de fazer parte, pude sempre constatar a sua perseverança para tornar o Santander em Portugal uma instituição de referência», pode ler-se na nota de pesar enviada pelo Santander Totta às redações, recordando que durante a sua liderança «consolidou e expandiu a sua atividade em Portugal».

Também a Associação Portuguesa de Bancos (APB) destacou a «longa e brilhante carreira» de António Vieira Monteiro. «Teve uma longa e brilhante carreira como gestor bancário, que protagonizou com evidentes resultados. Muito competente e rigoroso, tinha uma forte personalidade e firmeza de caráter, exercendo uma liderança efetiva», refere em comunicado.

A instituição presidida por Fernando Faria de Oliveira salienta ainda que Vieira Monteiro exerceu «com todo o empenho e dedicação as suas funções» durante o seu mandato na direção da APB, «assumindo posições e dando contributos muito relevantes para o desenvolvimento e fortalecimento do setor bancário nacional».

Já o Millennium BCP lembrou o percurso «de grande relevância na banca portuguesa, que deixa um legado notável no setor financeiro e na economia».

A opinião é partilhada pelo conselho de administração da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que assinala «a notável carreira dedicada ao desenvolvimento do setor financeiro nacional e ao serviço do país».

O banqueiro Horta Osório também deixou uma nota, recordando a «personalidade fortíssima» do chairman do Santander Totta e a sua «enorme experiência» de banca, em particular de crédito e empresas. «Trabalhámos, mais tarde, juntos durante mais de dez anos no Santander, depois de o ter chamado para liderar o conselho de crédito, quando comprámos o Totta ao António Champalimaud», recordou, vincando que Vieira Monteiro desempenhou o seu papel no conselho «de forma exemplar», contribuindo para «a afirmação e crescimento saudável do Santander Totta em Portugal».