Conta-me como vai ser

Vamos estar em queda livre sem saber muito bem até quando

Acho que as medidas que foram lançadas são muito pequenas. E se formos realistas, percebemos que podiam ser muito maiores. Mas estar a manter emprego artificialmente em atividades onde o emprego deixou de haver clientes não é possível. E um país a viver sem qualquer orientação estratégica – e é nisso que Portugal vive há 20, 30 ou 40 anos.

Há um aspeto que devia ser salientado que diz respeito à situação atual e às previsões de evolução quer quanto às medidas que venham a ser tomadas. E estas têm a ver com o peso relativo da atividade turística, direta, ou seja, quando é que os turistas gastam e indiretamente, isto é, os setores que produzem artigos diversos que são vendidos aos turistas. Há um efeito direto e indireto na economia e Portugal deve ser, na União Europeia, dos países que tem mais peso dessa atividade. Andará entre os 20 e os 25% do PIB. Vamos estar em queda livre sem se saber muito bem até quando porque, num cenário mais favorável, haveria alguma recuperação por altura do verão mas é muito pouco provável que isso aconteça. Acho que vai haver uma grande baixa de atividade, vai haver uma baixa de preços para a atividade que fique e vai haver uma taxa de desemprego a subir muito nesse setor. Aliás, foi o setor onde criámos mais empregos nos últimos três ou quatro anos e vai ser aquele que vai ser mais afetado agora. Em muitos casos, estamos a falar de emprego informal. Qualquer tentativa de bloquear possibilidades de despedimento – que é capaz de haver essa tentação – não vai funcionar porque as pessoas não têm vínculo ou têm um vínculo muito ténue. Tudo isto aponta para que tenhamos uma taxa de queda do PIB entre os 5 e os 7,5%, o que é um pouco mais do que tivemos com a crise financeira em 2009. Acho que isto ajuda a ter uma ideia do que é que podemos ter pela frente. O que é que o Governo pode fazer para resolver isto ou atenuar? Acho que as medidas que foram lançadas são muito pequenas. E se formos realistas, percebemos que podiam ser muito maiores. Mas estar a manter emprego artificialmente em atividades onde o emprego deixou de haver clientes não é possível. E um país a viver sem qualquer orientação estratégica – e é nisso que Portugal vive há 20, 30 ou 40 anos – não dá bom resultado porque criámos uma economia bastante vulnerável e, neste momento, em relação a este fenómeno, é muitíssimo vulnerável.

O outro fator que vai influenciar muito a curto prazo é a evolução da situação em Espanha. Temos algumas cadeias produtivas, nomeadamente no têxtil, muito ligadas à indústria espanhola, tipicamente a Zara e organizações desse género, e portanto vai depender muito de como vai correr as coisas com eles. Essa parte da recuperação não fica por nossa conta, fica por conta deles. Não é mau! É ter alguém que faça qualquer coisa que nos ajuda. Acho que nos devíamos concentrar em apoiar os setores exportadores porque vamos precisar muito desse dinheiro e desses postos de trabalho. E portanto, se conseguíssemos fazer isso, acho que seria muito útil. E devíamos conceder esquemas rápidos de formação em que pudéssemos transferir ativos para essas atividades exportadoras. Penso que isso teria efeitos benéficos a muitos anos de vista e é uma coisa para a qual vamos ter largos meses para o fazer. É possível pensar, organizar, arranjar formas simples, práticas, pouco burocráticas de fazer essas coisas. É tentar aprender e mudar o que está mal e tornar mais práticas as coisas, já ao longo dos anos nos fomos tornando cada vez menos práticos. Mais teóricos, mais utópicos, dispostos a discutir as casas de banho unissexo durante meses ou a eutanásia. Se calhar o vírus vai dar cabo desse problema sozinho. Acho que era muito bom que os nossos dirigentes se preocupassem fundamentalmente com o bem-estar das pessoas, com o garantir condições práticas para haver emprego e que deixassem de tentar tanto tomar conta da nossa cabeça e da maneira como pensamos em relação a uma data de temas fraturantes que, de facto, não vão ser as prioridades para os próximos tempos.

Se tivermos uma quebra do PIB à volta dos 7 ou 8% – o que é perfeitamente possível – isso significa que a previsão do Governo de uma taxa de crescimento de 1,9% para o PIB que já era considerada muito otimista, pode vir a saudar uma queda de 5 ou 5,5% com o desemprego a crescer para à volta dos 10%. Isto tem um efeito devastador sob as quotas do Estado e vai obrigar a que se pense muito bem como é que se gasta os recursos existentes, que são muito menos folgados do que aquilo que se quis dar a entender. É preciso encontrar formas de garantir emprego viável nos próximos tempos. Acho que vai ser um dos grandes desafios.

Há quatro anos, Bill Gates dizia que não estávamos preparados para uma coisa destas. Normalmente as sociedades não se preparam para estas coisas. Não é Portugal não se prepara, é ninguém se preparou. Há países que estão a passar muito pior que outros e isso vai ver-se claramente daqui a uns meses. A partir daí, é preciso tirar algumas reflexões e conclusões. Quais são os sistemas de saúde que resistiram melhor, os que resistiram pior, quem são os países que são melhor ou pior governados. E aí assim, vão-se tirar ilações.

por Ferraz da Costa
Economista