Conta-me como vai ser

Uma nova ordem? Pois claro!

Para o bem e para o mal, a economia está globalizada, o que faz com que todos dependam de todos, embora, como sempre acontece… uns sejam mais iguais que outros.

Assegurando-se de que as águas já tinham baixado, Noé soltou os animais que trazia na arca… e a Terra voltou a ser como era antes do dilúvio. No vigésimo ano do século XXI, a Humanidade volta a ser fustigada por uma calamidade, que a atinge no que tem de mais precioso: as pessoas. O busílis é que não há arca salvadora à vista.

É certo que ninguém acredita que o número de mortes do COVID-19 se aproxime dos milhões da peste negra ou da gripe espanhola, mas falta saber até onde irá a destruição do tecido económico. Pense-se no que serão as consequências da asfixia do comércio ou o dinheiro que será necessário para acorrer a milhões de desempregados, e estamos conversados.

Os prenúncios não são animadores. Os governos estão a fechar fronteiras, a isolar cidades e regiões, com o que impedem a circulação de pessoas e bens, daí resultando efeitos em cadeia que atingirão, necessariamente, a produção. E não há que duvidar: corpo por onde o sangue não circula… gangrena e morre.

Para o bem e para o mal, a economia está globalizada, o que faz com que todos dependam de todos, embora, como sempre acontece… uns sejam mais iguais que outros. Por isso, ninguém estranhará se, no day after, a China, EUA e Rússia aparecerem a redistribuir as zonas de influência mundiais, deixando a União Europeia de fora. São os ‘mais iguais’ a ditar as suas regras.

Para agravar as coisas, na nossa Europa, as pulsões nacionalistas crescem e o fantasma do Brexit ri-se dessa coisa a que, um dia, chamaram coesão. Neste enquadramento, o fecho de fronteiras é um precedente perigosíssimo: os povos, primeiro estranham, depois entranham. Se a crise se acentuar, será cada um por si, como nos naufrágios... e adeus sonho europeu.

Portugal tem 1.300.000 PME, distribuídas por uma agricultura pobre, uma indústria que ‘já era’ e um comércio antiquado. Quase não há grandes empresas e as que valiam alguma coisa estão em mãos estrangeiras. Demasiado dependentes do exterior, sentimos o mais ligeiro abanão como um terramoto, como se viu em 1974/78 e 2008/12.

Na fase de contenção em que estamos, compreende-se que as primeiras medidas sejam de carácter defensivo, mas o que já foi anunciado não tranquiliza. Mais uma vez, os poderes públicos aprestam-se para tratar igual o que é diferente, contrariando a teoria económica, que manda que se aproveite a destruição para reerguer as economias em bases mais sólidas. Apoiar o que é viável e deixar cair o que deixou de o ser é um exercício delicado, que exige saber e coragem, mas é nas batalhas que se vê a competência e a fibra dos generais.

Tudo está em saber amortecer a queda, o que exige mecanismos institucionais que ajudem os empresários a encerrar as empresas. São muitos os que desejariam alijar as cargas do passado, só não sabem como. De seguro, só sabem que os PER não são solução. Patrões e empregados aspiram por um reset que abra caminhos novos, minimizando os danos para terceiros. Vontade não faltará, ideias e energias também não.

por Filipe Pinhal
Economista