Desporto

O revés nos negócios milionários

Transferências com valores astronómicos não serão certamente uma realidade no futebol dos próximos tempos. Sobreviver é palavra de ordem para a maioria dos clubes, que não vão ter receitas para ir ao mercado de verão e de inverno.

Frederico Varandas bateu a cláusula de rescisão que o Sporting de Braga tinha colocado no contrato de Ruben Amorim quando o antigo jogador do Benfica assumiu o comando técnico do clube: 10 milhões de euros. O novo treinador do Sporting, na cerimónia de apresentação, ao lado do presidente dos leões, confessou que quando viu o valor, 10 milhões, até se riu: «Até podiam ser 20 milhões, achei que nunca ninguém iria pagar isso por mim». Ruben Amorim, de então para cá, apenas se sentou no banco da equipa leonina no encontro frente ao desportivo das Aves. Porque a liga, como todas as outras e a generalidade dos desportos, ficou em suspenso por causa da pandemia da covid-19.

Aquela reação de Ruben Amorim provocou sorrisos no público em geral, particularmente nos não adeptos do Sporting, e nas redes sociais serviu de mote para as vulgares graçolas.

Mas a verdade é que o novo treinador sportinguistas, sem o saber, pode bem ter sido premonitório. A suspensão do futebol mundial, que levou já ao adiamento do Europeu para 2021, lança as maiores dúvidas sobre a sobrevivência dos clubes e a capacidade de recuperação do desporto-rei.

«Atlético de Madrid paga ao Benfica 126 milhões de euros por João Félix»; «Cristiano Ronaldo na Juventus a troco de 100 milhões de euros»; «PSG torna Neymar o futebolista mais caro da história do futebol mundial depois de pagar 222 milhões de euros ao Barcelona». Muito provavelmente, o mercado de transferências não terá tão cedo operações milionárias que nos dão tema de conversa para vários dias.

Menos de dois meses depois da chegada da covid-19 à Europa, são já vários os clubes que ligaram o botão de emergência – os cortes salariais já aplicados em alguns casos são prova disso. Sem saúde financeira, a janela de transferências (de verão e inverno) vai ter a partir de agora uma vida diferente.

O novo coronavírus promete incutir mudanças profundas no panorama desportivo num futuro próximo. Aliás, os jogos à porta fechada, medida já aplicada em vários campeonatos ainda antes de o surto ter obrigado à suspensão de praticamente todas as atividades desportivas a nível mundial, prometem ser uma realidade para os próximos tempos.

Mais à fre nte, ainda iremos descobrir até que ponto voltarão a ser viáveis espetáculos de futebol com mais de 60 mil pessoas nas bancadas (o estádio da Luz, do Benfica, tem capacidade para 65 mil pessoas, e apresenta, como se sabe, lotação esgotada a cada jogo decisivo).

Isto levanta logo à partida outro problema: as receitas de bilheteira.

Sem jogos abertos ao público, os clubes perdem esta fatia importante dos seus orçamentos.

A seguir virá outra dor de cabeça: as quotas. Muitos sócios dos clubes não estarão disponíveis a pagar por um serviço do qual não vão tirar proveito. Se a normalidade do jogo não for recuperada rapidamente, nem o amor ao clube será suficiente para o associado aceitar que o valor da mensalidade continue a sair da conta. Os restantes fatores já estão à vista de todos e a causar sérios estragos, como o caso das receitas televisivas e receitas de patrocínios, fontes absolutamente vitais para a saúde económica de qualquer clube.

O conjunto de fatores leva ao pior dos cenários: falta de dinheiro para pagar aos trabalhadores (desde jogadores, treinador e estrutura técnica).

A UEFA e a FIFA têm os cofres cheios, mas todas as reservas serão poucas para os impactos que se estimam. E quanto mais tempo a pandemia durar, mais grave a situação vai ficar.