Sociedade

Burlões aproveitam-se do medo do vírus

Ataques informáticos relacionados com o novo coronavírus e ‘oferta’ de serviços por falsos profissionais sob investigação. PJ, GNR, PSP e ASAE alertam para os vários tipos de abordagens que têm sido feitas por burlões.

Ciberataques e mensagens suspeitas que têm circulado nas redes sociais nas quais se pedem donativos – e não só – para combater o novo coronavírus estão a ser investigados pela Polícia Judiciária (PJ), que pede cuidado e extrema prudência aos portugueses na partilha desses mesmos conteúdos.

«Os contextos de crise de proporções internacionais são, tradicionalmente, explorados por atores hostis do ciberespaço para sustentarem as suas campanhas de ciberataques no alarmismo social e na atenção mediática global sobre o tema», sublinhou a PJ, que já conseguiu identificar quatro tipos de abordagens utilizadas nos esquemas de fraude digital.

As «campanhas de phishing» que estão a ser usadas, a coberto da imagem de entidades oficiais como a Organização Mundial de Saúde, a UNICEF ou centros de investigação de laboratórios do setor da saúde, com conteúdos relativos ao surto, são um dos tipos de abordagem, assim como a divulgação de «plataformas digitais ou de aplicações para dispositivos móveis que aparentam divulgar informação em tempo real sobre a pandemia», os esquemas de fraude digital partilhados por email ou em redes sociais para recolha de donativos e ainda as SMS_enviadas a informar que estão a ser aplicadas medidas extraordinárias para o combate à covid-19.

Deste modo, a PJ aconselha «extrema prudência no acesso, na receção e na partilha de conteúdos digitais associados à temática da pandemia covid-19», lembrando os portugueses que se deve dar prioridade a fontes oficiais e reputáveis de informação.

Também a GNR deixou nas últimas horas um alerta através da página oficial de Facebook, chamando a atenção para eventuais falsos profissionais de saúde. «Se lhe baterem à porta para fazer um rastreio, ou oferecer serviços de telecomunicações, desconfie e contacte a GNR. Idosos, que vivem em zonas isoladas, são o principal alvo deste tipo de burla, com o objetivo de furtar ou roubar as poupanças de uma vida», pode ler-se na publicação, na qual são também referidos os métodos utilizados por quem comete estes tipos de burlas. «Os métodos utilizados passam por, de forma credível, bater à porta das vítimas fazendo crer que, no âmbito da situação vivida no nosso país, são profissionais de saúde e que pretendem rastrear os idosos quanto à covid-19 ou, noutros casos, a dar conta da oferta de serviços de telecomunicações. Em ambos os casos, os idosos acabam por ser vítimas de furto», explicou a GNR.

A PSP também fez parte deste fio condutor de proteção e solicitou que a população denuncie situações de burla relacionadas com o novo coronavírus. O SOL sabe que a PSP tem conhecimentos de várias denúncias. Segundo o Público, esta polícia tem registado um aumento de burlas digitais nas últimas semanas.

Em algumas juntas de freguesia, por exemplo, têm sido feitos apelos à população local, uma vez que existem tentativas de roubo, nomeadamente em Arroios, Lisboa. Através das redes sociais foi comunicado que «em algumas zonas da freguesia anda um grupo a bater às portas e a fazer-se passar por médicos com batas brancas com o pretexto de que estão a fazer um rastreio à covid-19». O mesmo apelo está a ser feito pela freguesia de Santo António, em Lisboa, que também utiliza o Facebook para alertar os habitantes. «Nenhum agente da EDP anda de porta em porta a propor mudança de contador para não pagar a luz», lê-se na publicação, cujos comentários referem-se exatamente a pessoas que já terão sido ludibriadas. «As minhas vizinhas já foram burladas com a módica quantia de 150 euros. São senhoras com idade avançada», pode ler-se num dos comentários feitos a essa publicação.

 

ASAE e Deco pedem cuidado

A Deco também já alertou para os esquemas fraudulentos por SMS, emails e aplicações. A vulnerabilidade dos cidadãos, em plena crise de saúde pública em Portugal, é, segundo a entidade, um terreno fértil para estes tipos de fraudes. «Usam as comunicações oficiais e fazem réplicas para esquemas de campanhas de angariação de fundos para combate à doença, testes de despiste da covid-19, plataformas de informação sobre evolução da pandemia e campanhas de vacinação comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde», avisou a Deco em comunicado, sublinhando que até já existem denúncias de exigências de pagamentos em bitcoins como moeda de troca para desbloquear o telemóvel. «Não pague o resgate, porque é pouco provável que recupere o acesso», aconselhou a entidade.

A Deco indicou ainda que se deve ler com muita atenção todas as mensagens recebidas para se verificar que o texto não tem incoerências gramaticais ou eventualmente erros ortográficos. «Desconfie se lhe oferecem máscaras, gel desinfetante ou até papel higiénico. Ainda não há cura para a covid-19. Confie apenas em comunicações de organismos oficiais», reforçou.

Para auxiliar no combate a estes ataques virtuais, a_ASAE desencadeou também uma operação de combate ao alegado lucro ilegítimo obtido na venda de bens necessários para a prevenção e combate ao novo coronavírus. «A operação foi desencadeada por se ter verificado, nos últimos dias, oferta online e em estabelecimentos fixos, de vários produtos essenciais para combater a covid-19 que mostravam subidas exorbitantes de preços», indicou em comunicado. A nível nacional, foram fiscalizados cerca de 28 operadores económicos e foi ainda instaurado um processo crime «pela prática de obtenção lucro ilegítimo na comercialização de álcool gel». Além disso, dois processos de contraordenação por práticas comerciais ilegais foram abertos, estando ainda em análise documental cinco ocorrências por suspeita de obtenção de lucro ilegítimo.