Falar Baixinho

Ensino doméstico forçado

Nesta quarentena, a palavra de ordem tem de ser calma e descontração. O importante é conseguir que os alunos se mantenham ativos no estudo.

Com as escolas fechadas por tanto tempo e sem previsão para abrirem, os alunos têm indicações para estudar, fazer e apresentar trabalhos. Muitos professores estão até disponíveis para tirar dúvidas e vão atualizando regularmente as propostas de trabalho com datas de entrega.

Em muitas casas pequenos e graúdos começam a desesperar à medida que a matéria e os exercícios se vão amontoando. Muitas plataformas e sites de apoio ao estudo têm problemas, outras são pouco intuitivas, há ficheiros que não abrem ou se revelam impossíveis de enviar e os miúdos precisam sempre de ajuda ou orientação para qualquer coisa. Ou seja, sem os pais, pouco ou nada conseguem fazer.

Acredito que com o tempo se tornem mais autónomos a realizar essas tarefas – o que, só por si, seria uma enorme vantagem desta quarentena. Mas no início dependem bastante dos pais que se têm visto gregos para os ajudar.

Entre estes correm mensagens de pedidos de ajuda para aceder a plataformas, abrir documentos e mesmo realizar exercícios. Muitos, naturalmente extenuados e algo ansiosos com a situação ímpar que se vive, ao verem-se ainda com trabalhos para enviar, tarefas para descodificar e solicitações constantes, revoltam-se com a os filhos, a escola ou os professores. Dizem que se quisessem optar pelo ensino doméstico não tinham inscrito os filhos na escola, que estes são uns preguiçosos, que não admitem que os professores lhes deem ordens e preocupam-se com as avaliações neste período.

Estamos numa situação atípica, a fazer o nosso melhor. Há casas em que os pais, além de tomarem conta dos filhos e fazerem as tarefas domésticas, estão em teletrabalho, sabe Deus como. Outras em que os pais vão trabalhar e os filhos têm de ficar entregues a alguém. Nalgumas casas não há internet ou computador  à disposição dos mais novos. O tempo e disponibilidade para o apoio ao estudo pode ser muito escasso e exigente quando há já muitas situações geradoras de ansiedade. Não precisamos de a tudo isto juntar o receio de que os nossos filhos não cumpram todos os deveres da escola.

Os professores estão, como nós, em fase de adaptação, a descobrir a melhor forma de manter a escola ativa. Fazem o que sabem e podem para que os alunos possam continuar a ter hábitos de estudo com algum acompanhamento. Mas temos de ter a sensatez de perceber que neste momento ser um aluno exemplar não é prioridade.

Cada aluno deve acompanhar o estudo calmamente, de acordo com a disponibilidade de meios que tem e apoio dos pais. Não será possível fazer uma avaliação justa quando os alunos não estão em pé de igualdade pela diversidade e constrangimentos de cada família.

Mais uma vez, nesta quarentena, a palavra de ordem tem de ser calma e descontração. Não vale a pena pensar se o aluno irá ficar para trás, se as turmas irão andar para a frente, repetir o ano ou se haverá provas ou exames nacionais. O importante é conseguir que os alunos se mantenham, na medida do possível, ativos no estudo. Mas que isto não seja causador de ansiedade para ninguém, que é o que as famílias menos precisam neste momento.