Desporto

1938. A mais longa viagem

As Índias Orientais Holandesas vieram dos confins do planeta para o Mundial de França. Perderam um jogo e regressaram a casa.

O arquipélago era tão vasto que organizar um campeonato nacional não fazia sentido nesses longínquos anos 30. Apenas nas ilhas de Java e de Sumatra se realizavam jogos, geralmente entre seleções de cidades. Mas, em 1935, a FIFA aceitou como membro uma federação com tudo de exótico: Nederlandsch-Indische Voetbal Unie, ou seja a Federação de Futebol das Índias Holandesas. Depois da independência, conquistada após uma guerra sem quartel contra os japoneses que, durante a II_Grande Guerra, tinham ocupado a antiga colónia holandesa, esta ganhou um nome mais prosaico: Indonésia.

Mas isto foi bem mais tarde, pelo que não nos resta outro caminho senão o de voltar atrás no tempo. Nos Países Baixos o futebol era levado a sério. A primeira vez que uma seleção holandesa participou de uma competição foi nos Jogos Olímpicos de Londres em 1908. Ganhou a medalha de bronze, o que prometia novos feitos. Repetiu o bronze nos Jogos de 1912 e 1920, esteve no jogo para o terceiro e quarto lugar em Paris, em 1924, perdendo para a Suécia, mas os seus dirigentes teimaram em resguardar-se do profissionalismo, considerando-o como uma corrupção do verdadeiro espírito desportivo.

Entretanto, as Índias Orientais Holandesas percorriam o seu caminho. E com méritos indesmentíveis. Na sua estreia numa grande competição, os Jogos do Extremo Oriente, chegaram à final e só foram derrotadas pela China. O passo seguinte era participar nas eliminatórias de qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo de 1938, em França. Algo que fizeram com uma alegria contagiante.

 

Tanta laranja

Lá longe, na Europa, os colonizadores holandeses estavam metidos em sarilhos idênticos. O seu grupo de qualificação foi convenientemente restrito ao Benelux: Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. O assunto resolveu-se em três jogos: Holanda 4 – Luxemburgo, 0; Luxemburgo 2 – Bélgica 3; Bélgica 1 – Holanda 1. A presença em França foi garantida pela diferença de golos. Missão cumprida. Com o Anschlüss, a Áustria foi engolida pela Alemanha nazi e os seus jogadores integrados na seleção germânica. Sorte dos belgas: foram repescados.

Nunca um Mundial seria tão europeu como esse. Uruguai e Argentina, zangados por a Europa receber a sua segunda fase final consecutiva (em 1934, o Mundial tivera lugar em Itália), pura e simplesmente ignoraram a prova e ficaram em casa. França (organizadora) e_Itália (campeã em título) dispensaram barragens. Dos 14 lugares em aberto, 11 foram atribuídos à Europa, sobrando dois para as Américas e um para a Ásia. Brasil e Cuba ocuparam o espaço americano, mas o que aqui nos traz é a história do que se passou no continente asiático.

Seja como for, os três extraeuropeus qualificaram-se com as duas pernas às costas. O Brasil tirou proveito da desistência dos vizinhos uruguaios e argentinos. Costa Rica,_Estados Unidos, El Salvador, Colômbia, México e Guiana Holandesa decidiram não comparecer, abrindo o caminho aos cubanos. Japão e Índias Orientais Holandesas tinham encontro marcado, mas os japoneses também não cumpriu o calendário.

Não fora a Guiana Holandesa retirar-se e poderiam ter estado em França um colonizador e duas das suas colónias. Algo que nos dias que correm não faz qualquer sentido. Se é que alguma coisa faz sentido nos tempos que correm, desculpem lá o desabafo.

 

Destino idêntico

No dia 5 de junho, os Países Baixos e a sua colónia oriental entraram em campo exibindo berrantes camisolas laranjas. Em cidades diferente, como está bem de ver. Os colonizadores em Le Havre, para se baterem com a Checoslováquia, os colonizados em Reims, para enfrentarem a Hungria. Nos dois estádios escutou-se o Het Wilhelmus, o hino holandês, curiosamente o mais antigo de todos os hinos.

O destino de ambos seria idêntico. Ainda assim, a Holanda obrigou a Checoslováquia a um prolongamento antes de se ver batida por 0-3. Os indonésios foram claramente espancados por uma Hungria que atingiria a final de Paris: 0-6.

Mandava o regulamente que os derrotados regressassem a casa. A longa viagem dos jogadores das Índias Orientais soubera a azedo. Ainda assim, o seu capitão, Achmad Nawir, declarou com orgulho: «It was about the sport, which brings joy to life and does not degenerate into the grim faces of purely success-hunting diehards». Uma semana mais tarde, no_Estádio Olímpico de Amesterdão, os dois derrotados enfrentaram-se numa compita amigável. Goleada dura: 9-2. A distância parecia cada vez mais longa.