Contra a Corrente

O covid-19 e o futuro

Sociedades a quem se coloca o dilema de escolher entre ‘salvar vidas’ ou ‘salvar a economia’ estão fundadas num grave equívoco e atingiram o limite da sua viabilidade.

A Vida Humana decorreu, durante centenas de milhares de anos, em ambientes comunitários onde as atividades e relações que hoje distinguimos e compartimentamos em categorias de ‘político’, ‘social’, ‘económico’, ‘cultural’ e, mais recentemente, ‘ambiental’, ocorriam de forma naturalmente integrada num único fluir designado simplesmente por Viver. Mais ainda, desde muito cedo, os humanoides e, a seguir, os já Humanos (Homo) começaram a considerar como tendo Valor os comportamentos e relações que contribuíam para a conservação da homeostasia individual e do grupo social. Surgiram assim, desse longo processo de evolução, os Valores Éticos (do grego Ethos) que, servindo de referência para os comportamentos e ações individuais e coletivas, conduziam à Eudaimonia, isto é, à Felicidade e ao Bem-Viver.

A presente ‘crise’ do covid-19 mostra-nos, em primeiro lugar, duas coisas: a) que por muita ‘Inteligência Artificial’ e ‘5G’ que tenhamos hoje, continuamos a ser aqueles multicelulares vulneráveis que, desde há 1.500 milhões de anos, sofrem sucessivos ‘ataques’ de micróbios e vírus; b) que sejamos ricos ou pobres, brancos, negros ou amarelos, ‘bonitos’ ou ‘feios’, somos, simplesmente, seres humanos e que, todas essas ‘categorias’ são meras criações conjunturais das nossas cabeças, dissociadas da Natureza. Sejamos, pois, menos arrogantes, mais humildes e atenciosos para com todos os outros.

Em segundo lugar, a atual ‘crise’ mostra-nos que o modelo de ‘civilização’ e de ‘sociedades’ que temos vindo a construir precisa de ser urgentemente repensado.

O Capitalismo, isto é, a subordinação de toda a vida das sociedades (do ‘político’, do ‘social’, do ‘económico’, do ‘cultural’ e do ‘ambiental’) às necessidades de reprodução ampliada do Capital, tendo embora constituído, durante quase dois séculos, um fator de forte desenvolvimento dos grupos humanos (aprendemos a gerir de forma ‘ótima’, intensiva, os recursos necessários à produção, aproximando-nos da Eficiência da própria Natureza) atingiu os seus limites de utilidade. Na realidade, ele já foi substituído por um Neo-Feudalismo de caráter meramente extrativo, parasitário, que suga a Humanidade através de Tributos (juros, dividendos e rendas) e que a escraviza através da Dívida.

No atual ‘quadro’, de que não se conhecem ainda as finais consequências nem a extensão temporal, a ‘economia’ ‘portuguesa’ só poderia ser ‘salva’ e o ‘apoio de sobrevivência’ de muitos milhares de portugueses só poderia ser assegurado à custa de vultuosíssimos empréstimos do Estado que, a acrescer aos já existentes, se tornariam Impagáveis.

Não nos irão, portanto, emprestar esses montantes, correndo nós o risco de nos vermos ‘cair no chão’, isto é, acabar de vender Portugal (designadamente o seu património territorial, rústico ou urbano) e ficar o resto da vida a ‘mudar camas’ em hotéis e a ‘servir pratos’ em restaurantes, atividades para as quais já andamos a ser treinados pela ‘aposta estratégica’ no turismo.

Pensar que, ultrapassada esta ‘curva apertada’, tudo poderá vir a ser como dantes, é, no mínimo, ‘imprudência estratégica’.

Em minha opinião, não deveremos ‘salvar a economia’ mas sim reinventar de novo as comunidades, o autogoverno social realmente democrático e participativo, e construir uma ‘Nova Economia’ baseada na reintegração de todos os ‘domínios’ da vida agora disjuntos, na cooperação e não na competição, na entreajuda e não na sacanagem geral, enfim, Construir uma Vida Social virada para a Eudaimonia, com base nos Valores Éticos.