Cultura

Caso Dreyfus. Um judeu na ilha do Diabo

Embora, desde os horrores do nazismo, o nome da Alemanha e o antissemitismo andem indissociavelmente ligados, o ódio aos judeus não é um fenómeno exclusivamente germânico. Nunca foi.

E teve até uma forte expressão aqui mesmo, na Península Ibérica.

No século VI da nossa Era, o rei visigótico da Hispânia proibiu os judeus de se casarem com cristãos (entre outras medidas discriminatórias). Mais tarde, em 1492, os Reis Católicos promulgariam o famoso decreto de Alhambra (1492) que ordenou a expulsão ou conversão forçada dos judeus. Alguns fugiram para Portugal, onde cinco anos depois (1497) o Rei D. Manuel I tentou também convertê-los à força ao cristianismo.

Os séculos foram passando e o preconceito e as perseguições na Europa não diminuíram. O império russo foi palco de muitos episódios de antissemitismo, como os pogroms de Odessa de 1905, que provocaram centenas de mortes, milhares de feridos e milhões de rublos de prejuízo. Nicolau II, o último czar da Rússia, era um notório antissemita.

Mas um dos casos mais espetaculares, mediáticos e infames decorreu na França de finais do século XIX, na década em que se assistia em Paris ao triunfo dos pintores impressionistas. Curiosamente, não envolveu o derramamento de sangue - em contrapartida, fez correr muita tinta nos jornais.

O Caso Dreyfus é o tema de O Oficial e o Espião (ed. Presença) o soberbo romance de espionagem de Robert Harris que deu origem ao filme de Roman Polanski, J’Accuse, O Oficial e o Espião. A ideia nasceu numa conversa entre o escritor britânico e o realizador americano em 2012, à mesa de um restaurante em Paris - a cidade onde tudo começou em 1894, com a interceção pelos serviços secretos franceses de um documento que apontava para a existência de um espião, infiltrado no exército, ao serviço dos alemães. ‘Desagradável’, ‘imundo’, ‘sórdido’ e ‘incómodo’ foram alguns dos adjetivos usados pela hierarquia militar para caracterizar o caso.

A investigação resultou num julgamento que condenou o capitão Alfred Dreyfus por traição. Na humilhante cerimónia pública de degradação, foram-lhe arrancadas as insígnias militares e partida a lâmina da sua espada. Apesar do frio glacial daquele janeiro de 1895, havia milhares de parisienses - vinte mil, segundo alguns relatos - a assistir. «O ruído da turba era contido mas ominoso, como a respiração de um animal poderoso, temporariamente sereno mas que a qualquer instante poderia tornar-se perigoso», descreve Robert Harris. Ao assistir àquilo, um oficial comenta com o protagonista do livro, o cínico e meticuloso Georges Picquard: «Repare, major Picquart: os romanos lançavam os cristãos às feras; nós lançamos-lhes judeus. Suponho que isso seja um sinal de progresso».

O fedor dos esgotos

Dreyfus foi o bode expiatório do ressentimento e frustração dos franceses face à derrota na guerra franco-prussiana de 1870. De facto, a ‘grande humilhação de 1870’ - como também ficou conhecido o conflito que levou à perda da Alsácia-Lorena para o Império Alemão - mergulhou os franceses um estado de depressão e de paranoia que encontrou na condenação do capitão de origem judaica o escape perfeito.«Quando observo as ruas de Paris e vejo a quantidade de estrangeiros que estão por toda a parte, e considero a degeneração de todo e qualquer padrão moral e artístico, chego à conclusão de que já não conheço a minha cidade. Essa é a razão pela qual perdemos em 1870. A nação deixou de ser pura». As palavras pertencem ao veterano Jean Sandherr, antecessor de Picquart na chefia do departamento que recolheu as provas que incriminaram Dreyfus. Havia que extirpar de França o elemento ‘impuro’ causador da degeneração.

Seis meses depois da degradação de Dreyfus, Georges Picquart sucede a Sandherr. «É chegado o mês de junho. O ar aquece e em pouco tempo Paris começa a tresandar a merda. O fedor eleva-se dos esgotos e acumula-se sobre a cidade como um gás infeto», discorre o protagonista do romance. «Nos jornais, os especialistas são unânimes a considerar que não é tão grave como o primeiro ‘grande fedor de 1880’ […] mas não há dúvida de que estraga os primeiros dias de verão. ‘É impossível estarmos na varanda das nossas casas’, queixa-se o Le Figaro, ‘é impossível sentarmo-nos numa das esplanadas de um dos movimentados e aprazíveis cafés […].’ O odor entranha-se-nos no cabelo e nas roupas e infiltra-se nas narinas, até mesmo na língua, ao ponto de tudo quanto ingerimos saber a putrefação. É esta a atmosfera que se vive no dia em que assumo o cargo de chefia da Secção de Estatística».

Enquanto lá fora domina o mau cheiro, no interior do edifício incaracterístico Picquart encontra um ambiente bafiento e mal iluminado, habitado por personagens duvidosas.

A partir daqui, Thomas Harris vai tecendo magistralmente as teias da intriga que condenou Dreyfus primeiro à degradação, depois a um doloroso cativeiro. O seu romance é como um policial em que existem todos os ingredientes: o crime, o motivo, o suspeito e o cadáver - mas o cadáver de um vivo, sepultado na minúscula, árida e remota ilha do Diabo, na Guiana Francesa (Atlântico Sul, perto do Brasil), onde foi construída uma prisão propositadamente para o receber.

Nenhum biltre se diz culpado

«Magro, pálido, sério, de lunetas por causa da miopia», Dreyfus não atraía a simpatia daqueles com quem se relacionava. Aos 30 anos era um dos melhores alunos na École Supérieure de Guerre, em Paris, e parecia mais velho. «Era um marido entre solteiros, um homem endinheirado entre indivíduos permanentemente necessitados». Também não deixara então boa impressão em Picquard, que lhe dera aulas de Topografia, e que não teve dúvidas da culpabilidade do antigo aluno aquando do escândalo de espionagem.

Dreyfus sempre declarou a sua inocência. Mas isso não comove o cínico Picquart. «Acredito nestas reclamações de inocência? Nem por um instante. Nunca, em toda a minha vida, conheci um biltre que não tivesse insistido, exatamente com esta grande sinceridade, que estava a ser vítima de um erro judicial».

Porém, aos poucos, remexendo nas provas e refletindo sobre os factos, o novo chefe da Secção de Estatística começa a questionar-se. «Por que razão, pergunto-me, insistimos neste absurdo e dispendioso encarceramento sem sentido, que obriga a que quatro ou cinco guardas sejam deixados com ele em silêncio na sua minúscula ilha? Qual é a nossa política? Quantas horas de tempo burocrático - incluindo o meu - têm de ser despendidas no interminável esforço administrativo, de vigilância e de censura que a sua prisão implica?».

Se de início se trata estritamente de uma questão de racionalidade, de boa gestão de recursos, a descoberta de um telegrama eleva a questão para outro patamar. Trata-se de um ‘telegrama de correio pneumático’ - um ‘petit bleu’, por causa da cor do papel, que viajava em tubagens de ar comprimido junto aos esgotos - com uma caligrafia idêntica à do documento usado para incriminar Dreyfus. Mas escrito por outra pessoa.O autor deste telegrama é indubitavelmente um homem que se autointitula ‘conde Esterhazy’, membro de uma importante família, mas arruinado. «Não tem dinheiro. Gasta-o todo no jogo. Não apenas nas mesas. Também nas corridas de cavalos e na bolsa de valores».

Caso encerrado

À medida que Picquart vai ficando mais e mais convencido de que o «misterioso Esterhazy» é o verdadeiro traidor e de que Dreyfus está inocente, as condições deste no cativeiro agravam-se. «Os ferros em forma de U estão fixados à cama. Os tornozelos dele são aí colocados quando o sol se põe. Depois, uma barra é inserida entre os ferros e presa com um aloquete. Dreyfus é deixado nesta posição até amanhecer. Para além disso, está a ser erguida em redor da sua cabana uma vedação dupla de madeira pesada com dois metros e meio de altura. A vedação interior dista apenas meio metro da janela. Por conseguinte, a vista que tinha para o mar foi completamente impedida. E durante o dia já não lhe é permitido deslocar-se para lá da vedação exterior. O estreito espaço de rocha e vegetação enfezada entre as duas paredes, no qual não há nenhuma árvore nem sombra, é agora a totalidade do seu mundo». O sentimento de injustiça torna-se cada vez mais intenso.

O responsável pela Secção de Estatística prossegue então uma investigação por conta própria e apercebe-se de que aquilo que incrimina Dreyfus de forma mais explícita é apenas uma nota assinada com um D. - que poderia ter sido escrita por qualquer um cujo apelido começasse por aquela letra. As provas são, para dizer o mínimo, inconsistentes. E transmite-o ao seu superior hierárquico, o chefe dos serviços secretos, o general Gonse.

« - Mas e se descobrirmos que o traidor não foi Dreyfus mas Esterhazy?», pergunta Picquart.

« - Bom, não vamos descobrir isso, pois não? Porque, tal como acabei de lhe explicar, o caso Dreyfus está encerrado. O tribunal pronunciou o seu veredicto e ponto final».

Perante a teimosia do protagonista, Gonse é ainda mais explícito: «Estamos no exército, coronel, não num núcleo de discussão de ética. O ministro da Guerra dá ordens ao chefe do estado-maior, o chefe do estado-maior dá-me ordens a mim e eu dou-lhe ordens a si. E agora ordeno-lhe formalmente, pela última vez, que não investigue nada que se relacione com o caso Dreyfus».

Picquart é alvo de chantagem psicológica: «Algumas figuras que ocupam cargos de elevadíssima importância sentir-se-iam profundamente embaraçadas. Pretende que isso aconteça? Consegue imaginar o golpe que isso representaria na reputação do exército? No fundo, que diferença lhe faz a presença de um judeu na ilha do Diabo?».

O lado negro  do exército francês

Face à desobediência, Picquard acaba colocado na Tunísia no final de 1896 e vê a sua promissora carreira por um canudo. É apenas o início de uma sucessão de tribulações. Em janeiro de 1898 o conselho de guerra iliba Esterhazy.

É então que entra em cena Émile Zola. Dois dias depois da decisão a favor de Esterhazy, é publicado pelo L’Aurore o explosivo libelo ‘J’Accuse!’, em que o célebre escritor apela ao Presidente Fauré para que repare a tremenda injustiça cometida pelo sistema judicial francês.

Acusa também o tribunal «de absolver um homem que sabia ser culpado». O texto cai como uma bomba. No mesmo dia em que sai o artigo, Picquard é condenado a 60 dias de prisão e conduzido a uma fortaleza nos arredores de Paris.A sociedade francesa divide-se em campos opostos: de um lado, os ‘Dreyfusards’; do outro, os seus opositores da ala conservadora. Entre os primeiros, que reclamam a libertação do capitão judeu, encontram-se, além de Zola, figuras como os escritores Marcel Proust e Anatole France ou o pintor Claude Monet. Entre os seus adversários também há artistas, como os pintores Edgar Degas e Pierre-Auguste Renoir. A imprensa de um lado e doutro usa palavras fortes - Mathieu Dreyfus, irmão de Alfred, orquestra e financia uma campanha, recrutando apoiantes, mandando imprimir e colar cartazes nas ruas e encomendando artigos nos jornais.

Campanhas negras, caça às bruxas, intrigas, chantagens, documentos forjados, conspirações, adultérios e até uma ilha-prisão com um nome terrível - de tudo isto se fez o caso Dreyfus, que revelou o lado mais negro do exército francês, se não da sociedade francesa. Thomas Harris encontrou o tom certo - ora sombrio, ora luminoso, mas sempre contido, preciso e acutilante - para nos guiar através destes meandros. Encontrou também o ponto de vista ideal, através do seu protagonista: Picquart, o homem que tem acesso a toda a informação, que força a reabertura do processo e que acaba castigado por isso.Com o seu romance, Harris junta-se a uma ilustre linhagem de escritores que se debruçaram sobre o tema: Zola, Proust, Hannah Arendt.E reserva-nos um desfecho à altura para este policial sui generis: no final, o cadáver levanta-se, começa a andar e abandona o seu túmulo rumo à liberdade.