Internacional

Teme-se segunda vaga da pandemia na Ásia

"Isto vai ser uma batalha a longo prazo e não podemos baixar a guarda", assegurou o responsável da OMS para a região, enquanto países como a China, Coreia do Sul e Singapura temem uma segunda vaga.

Vários países asiáticos, como a China, Coreia do Sul e Singapura, conseguiram controlar o alastrar da covid-19, através de medidas rápidas e duras, seguidas por boa parte da população. Contudo, “a epidemia está longe de ter acabado na Ásia e no Pacífico”, avisou esta terça-feira o responsável da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a região, Takeshi Kasai. “Isto vai ser uma batalha a longo prazo e não podemos baixar a guarda”, assegurou.

Na China, a origem da pandemia, que ultrapassou as 81 mil infeções registadas, com mais de 3300 mortos, de momento há pouco mais de dois mil casos de covid-19 em tratamento. Agora, o número de casos vindos do estrangeiro é muito superior às infeções localmente transmitidas: na segunda-feira foram 48 novos casos, todos importados. 

Também há receios que o vírus continue escondido na China. Ontem, o Governo divulgou o registo de mais de 1500 infeções sem sintomas, que até então não eram contabilizadas na China, ao contrário da prática noutros países. Entretanto, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, prometeu revelar mais dados ainda hoje.

A província de Hubei, onde fica Wuhan, já relaxou as suas restrições, algo seguido atentamente por governos de todo o mundo, ansiosos por perceber como e quando voltar à normalidade. “Precisamos de estar atentos a uma potencial segunda vaga de infeções”, explicou à Nature Ben Cowling, um epidemiologista da Universidade de Hong Kong, que prevê que a nova vaga, se vier, chegue em meados de abril.

Seria difícil um ressurgimento da doença numa população em que 50 a 70% tivesse sido infetada e ganho imunidade. Mas mesmo em Wuhan, que teve quase metade dos casos registados na China, com mais de 2400 mortes, nem 10% estarão imunes, estimou Gabriel Leung, investigador da Universidade de Hong Kong. “A tensão entre saúde, proteger a economia e bom estar emocional, vai atormentar todos os governos num futuro próximo”, avisou Leung à revista científica. 

 Face a isto, apesar do regresso às aulas em várias províncias chinesas, consideradas de menor risco, a China adiou ontem, por um mês, os exames nacionais de entrada na faculdade, os gaokao - estavam inscritos mais de 10 milhões de alunos. A última vez que os gaokao foram adiados foi no rescaldo da Revolução Cultural (1966 a 1976) quando Mao Tsé-Tung usou levantamentos populares para purgar adversários políticos.

Estudar no meio da pandemia Na Coreia do Sul, conhecida pelo fervor académico dos seus alunos, as escolas estão fechadas e os exames foram adiados. Contudo, reabriram espaços de estudo, os hagwons, onde estão inscritas três em cada quatro crianças sul-coreanas.

“Muitos pais ligaram e pediram para as aulas recomeçarem”, assegurou à Reuters Lim Sung-Ho, diretor da Jongro Academy, uma cadeia de hagwons com mais de seis mil alunos, que reabriu logo a 16 de março, com pleno funcionamento. Entretanto, esta terça-feira, houve mais 125 novos casos de covid-19 registados no país, depois de semanas de estabilização: o total já vai em quase 10 mil infeções registadas, com 162 mortes.

Já em Singapura, que conseguiu conter o seu surto no início, com menos de 900 infeções e apenas 3 mortes, foram registados ontem 14 novos casos, todos de estudantes de medicina nos Estados Unidos e Reino Unido. A preparação e rápida resposta de Singapura à pandemia é vista como modelo internacional.

“Janeiro e fevereiro foi de facto o momento de acelerar, e foi então que Singapura esteve particularmente ativo”, explicou à CNBC Dale Fisher, responsável da OMS para a resposta à pandemia. Gabou as fortes medidas de isolamento social e investigação de cadeias de transmissão no país - muitos detetives de Singapura foram postos a rastrear o percurso dos infetados.

 

Desinformação? Perante a pandemia, que incentivou ao racismo contra pessoas de origem asiática em todo o mundo, o que não falta é desinformação. Fica na dúvida se a notícia da reabertura dos mercados de animais selvagens em Guilin, no sudoeste da China, avançada pelo Daily Mail - um tablóide britânico acusado de racismo, sensacionalismo e de publicar notícias falsas - se enquadra nesta categoria. A notícia não foi confirmada por nenhuma agência noticiosa.

O certo é que China já proibiu a nível nacional o consumo de animais selvagens, após este ser relacionado pelo surgimento da covid-19 a humanos. Um vírus muito semelhante foi encontrado em morcegos, portadores frequentes de coronavírus, e pensa-se poderá ter chegado aos humanos através do consumo de pangolins.