No meio de nós

Estando em minha casa sossegado…

Recolhido em casa! Em cada dia telefono para duas ou três pessoas das minhas paróquias para saber como estão. Ficam felizes. Ficam contentes. Receber um telefonema vale hoje ouro. Celebro missa sozinho, com um seminarista, todos os dias. E lembro no altar as intenções de cada um dos meus paroquianos e de tantos outros que me pedem oração.

Levanto-me e rezo. A meio do dia, rezo. Ao fim do dia, rezo. Vejo se nas paróquias estão todos bem. Na quarta e na quinta-feira tive dois funerais. Um funeral só tinha a cunhada. Eu e a cunhada, uma amiga e o seminarista. Não podem abrir o caixão! O outro funeral estaríamos uns dez. Também não abrem o caixão. O pior de tudo é que também não puderem visitar os seus familiares enquanto estiveram nos hospitais. Não recebiam visitas.

É uma dor e um sofrimento que nos atravessa a todos. Não apenas a dor de quem é contagiado pelo covid-19. É toda a população que sofre, que se contorce. Assim havemos de estar até que nos mandem. Confinados às nossas casas, aos nossos quartos. Com imenso tempo para estar consigo e pensar na vida. Isso é o que custa ainda mais – pensar – porque não estamos habituados a faze-lo. Corremos, sem pensar, atrás dos nossos afazeres.

Este acontecimento de que somos assolados tem proporções bíblicas. Tenho pensado muito no Povo de Israel. Visito muitas vezes Israel e procuro compreender o povo hebreu. Quem são? Como vivem? O que pensam? O que comem? A sua história! O seu sofrimento. A primeira vez que fui a Israel passei pelos montes a pé, apanhei autocarros e percorri os principais percursos da história da Salvação. Foi incrível! Israel é uma paixão.

Agora estou a fazer ainda uma outra experiência que se assemelha à experiência que os hebreus tiveram aquando das pragas do Egito, quando eram escravos. Estou confinado em casa, a ouvir notícias, a rezar. Pensar como estão os meus paroquianos e os meus familiares. A solidão aparece e não sei quando isto acabará.

Fechado sossegado em minha casa, escuto o sofrimento do povo hebreu. Trancado nas suas casas, com as ombreiras das portas marcadas com o sangue do cordeiro. Celebravam a Páscoa. Em breve deixariam a sua escravidão. Mas ouço a angustia de tantas famílias hebreias que confinadas às suas casas escutavam o sofrimento de tantas mães ao verem mortos os seus primogénitos.

Na realidade, vale a pena voltar a ler o livro do Êxodo. Vale a pena voltar a ver o filme de Moisés. Vale a pena ver com os nossos filhos O Príncipe do Egito. Ele fala-nos de uma situação muito semelhante àquela que estamos a viver. Uma paralisação total do mundo conhecido – o Egito.

Mas há algo nesta história que é muito importante. Toda ela conta não apenas o sofrimento de um povo, mas principalmente a revelação do poder de Deus. Os Egípcios puderam ver que o Deus dos hebreus era poderoso e que os livrara da sua escravidão. Esta é a boa notícia do livro do Êxodo – saber que Deus envia Moisés a libertar um povo.

A história conta-nos factos impressionantes: o povo passar o mar vermelho a pé enxuto, é saciado com o maná – uma espécie de pão – com água, no meio do deserto. Deus alimenta o povo e não o abandona. É uma experiência de Deus incrível aquela que Israel faz de Deus.

De tal forma esta história impressiona o povo, que ainda hoje os judeus se juntam à sexta-feira para celebrar este acontecimento e na Páscoa contam esta mesma história aos seus filhos: «Os nossos pais eram arameus errantes que estiveram escravos do Egito e Deus o libertou com mão forte e braço poderoso».

Vale apena nestes dias voltar a ler esta história e a rezar o que gerações e gerações de cristãos e judeus rezaram e celebraram ao longo da vida.