Covid-19. A comunidade chinesa que é um oásis em Itália

Os residentes chineses de Prato, na Toscana, foram os primeiros a dar o alarme para os perigos da pandemia. Hoje, não há um único caso registado na comunidade, com cerca de 50 mil pessoas.

Para a maioria dos observadores, Prato, na Toscana, estava destinado a ser o foco de contágio de coronavírus em Itália. Os tempos eram outros: ainda não fora declarada a pandemia e a covid-19 devastava sobretudo Wuhan, na China. Prato, lar de uma das maiores comunidades chinesas da Europa, com cerca de 50 mil pessoas, quase um quarto da população, preparou-se para o desastre. Mas este nunca chegou: a cidade é um quase um oásis num país devastado pela pandemia – algo que tem sido atribuído aos cuidados da comunidade chinesa.

Enquanto Itália já ultrapassou as 100 mil infeções registadas de coronavírus, que causaram mais de 12 mil mortos, “entre os chineses residentes em Prato não há sequer um caso de contágio por covid-19”, assegurou Renzo Berti, o responsável pela saúde na região.

“Nós, italianos, tememos que os chineses de Prato fossem ser o problema. Em vez disso, eles estiveram muito melhor que nós”, explicou à Reuters. O dirigente atribui a baixa taxa de infeção em Prato – quase metade da média nacional – à comunidade chinesa, que desapareceu das ruas por alturas do novo ano chinês. Enquanto isso, outros residentes continuavam as suas vidas normais, reunindo-se em restaurantes e cafés.  

 

‘Efeitos inevitáveis’ Quando o consulado chinês avisou que cerca de 2500 pessoas regressariam à cidade depois de ir à China celebrar o Ano Novo – vindas sobretudo de Zhejiang, uma província no este do país, de onde são originários boa parte dos chineses de Prato – a notícia foi recebida como uma bomba. “Temos de aumentar o nível de atenção e prevenção, mas antes de mais combater o medo, ignorância, preconceito e racismo”, apelou na altura o governador da Toscana, Enrico Rossi – não seria tarefa fácil.

“Infelizmente, um dos efeitos inevitáveis desta doença é a xenofobia”, lamentara semanas antes Marco Wong, vereador de Prato. “Pais não levam as suas crianças à escola se tiverem colegas chineses e há pessoas a escrever na internet para não se ir a lojas e restaurantes chineses”, contou ao Guardian.

Mas talvez fosse nestes estabelecimentos que houvesse maiores cuidados. No que toca à prevenção e isolamento social, “a comunidade chinesa de Prato esteve um mês à frente do resto de Itália”, escreveu Hung Miaomiao, uma colunista do Huffington Post que vive na cidade. “As recomendações das autoridades chinesas chegaram como um martelo no WeChat”, uma aplicação chinesa semelhante ao Whatsapp, notou Miaomiao.

“Vimos o que estava a acontecer na China e tivemos receio por nós próprios, pelas nossas famílias e amigos”, explicou Luca Zhou, um italiano de origem chinesa, à Reuters. Foi um dos que regressaram a Prato vindos da China, e pôs-se de imediato de quarentena em casa, longe da mulher e dos filhos.

“Nenhuma autoridade italiana me disse nada. Fizemos tudo sozinhos”, contou Zhou, que após a quarentena saiu sempre à rua de máscara e luvas. “Os meus amigos italianos olhavam para mim de forma estranha. Tentei muitas vezes explicar-lhes que eles deviam usá-las… mas eles não compreenderam”.  

Após a Europa se tornar o epicentro da pandemia – como Itália, Espanha também ultrapassou a China, com mais de 100 mil infeções e quase 10 mil mortes – famílias de origem chinesa de Prato começaram a enviar as suas crianças e parentes mais vulneráveis para a China.

Outros ajudam a combater a pandemia: a comunidade está muito presente na indústria têxtil, boa parte da qual foi reconvertida para fazer máscaras e equipamento de proteção. Para os chineses da cidade, “certamente foi um passo em frente na relação frequentemente tensa com Prato”, notou Miaomiao.