Biblioteca pessoal

O escritor que enlouqueceu entre quatro paredes

O confinamento leva Jack Torrence à violência e à loucura, mas é quando sai que encontra a morte. Também na vida real uma saída irrefletida pode ter tido consequências fatais.

Um destes dias, creio que uma quinta-feira, a conversa ao jantar recaiu sobre o filme que devemos evitar por estes dias: The Shining, de Stanley Kubrick, que se inspira num romance de Stephen King. Quem conhece a história perceberá facilmente por que não é aconselhável vê-lo em tempos de confinamento. Mas já lá vamos.

A seguir a acabarmos de comer, instalámo-nos no sofá e ligámos a televisão. Às vezes faço um zapping rápido que começa na RTP1 e vai até ao Canal Panda, onde deixo para os nossos filhos verem de manhã ao acordarem. Desta vez parei logo na RTP2. Chamou-me a atenção o nome do programa que estava a dar: ‘S is for Stanley’. Depois da conversa que tínhamos tido ao jantar, pareceu-me uma enorme coincidência. Ou até mais do que isso…

Trata-se de um documentário protagonizado por Emilio d’Alessandro, um emigrante italiano em Inglaterra que foi motorista de Kubrick durante 30 anos e que testemunhou de perto as peculiaridades, mas também o génio, do grande realizador. Kubrick podia ser de uma exigência sem limites para com os seus colaboradores. Chegou a instalar uma linha telefónica direta do seu escritório para a casa do motorista e escrevia-lhe centenas de bilhetes com recados, tarefas e instruções minuciosas.

D’Alessandro estava presente aquando da rodagem de The Shining, que conta a história de um escritor, Jack Torrence (interpretado por Jack Nicholson), que se muda com a mulher e o filho para um hotel na montanha durante o duro inverno da América do Norte. O hotel está encerrado, como que para hibernar, pelo que Torrence só terá de cumprir algumas tarefas muito simples de manutenção, ficando com tempo de sobra para se dedicar ao livro que pretende escrever. Mas, com pouco para fazer, começa a matutar e a dar mostras de crescente perturbação mental devido ao confinamento.

Stephen King, o autor do romance que inspirou Kubrick, odiou o filme. O realizador privilegiou a atmosfera em detrimento da fidelidade ao livro. Na sua biografia de Kubrick, Vincent LoBrutto clarifica algumas opções do realizador. «Uma imagem centrada representa a ordem, o controlo, a disciplina, a lógica e a organização – as qualidades inerentes à personalidade de Kubrick e à sua psique como artista. Nos anos em que estava a desenvolver as suas capacidades como fazedor de imagens, Kubrick passou centenas de horas sentado em frente a um tabuleiro de xadrez – um emblema visual de ordem, com os seus 64 quadrados em oito filas alternando casas pretas e brancas».

Essa ordem da arquitetura em The Shining contrasta visivelmente com o que se passa na cabeça de Jack, que começa a ficar cada vez mais desorganizado. O confinamento leva Jack Torrence à violência e à loucura, mas é quando sai que encontra a morte. Também na vida real uma saída irrefletida pode ter tido consequências fatais. Kubrick andava com o seu motorista à procura de uma mansão para entrar no seu último filme, De Olhos Bem Fechados. Quando encontrou uma que lhe agradou, saiu do carro e fez centenas de fotografias. Fazia um frio de rachar. Olhando para o patrão, o motorista viu-o «com a barba toda branca». 

Stanley Kubrick morreu enquanto finalizava De Olhos Bem Fechados (um título assustadoramente premonitório). A sua saúde dava sinais de cada vez maior fragilidade e aquela saída prolongada para o frio talvez tenha agravado o seu estado. Neste período de confinamento, encaremo-lo como um aviso. Cuidado para não dar em maluco!Mas evitemos também saídas arriscadas, não vão elas dar mau resultado.