Internacional

Os países que recusam o isolamento

Os suecos podem sair à rua, como se nada se passasse. Na Bielorrússia, recomenda-se aos cidadãos vodca e sauna. A resposta dos EUA é uma manta de retalhos e, no Brasil, Bolsonaro gozou com os governadores por terem ‘medinho’ da covid-19.
 

Com metade da humanidade confinada às suas casas, há quem resista a medidas mais restritivas contra o novo coronavírus. Nos Estados Unidos, que caminha a passos largos para ser o novo epicentro da pandemia, o governo federal deixou boa parte da resposta nas mãos das autoridades estaduais: cada vez mais estados se apercebem do que aí vem, outros tardam em agir. Enquanto isso, na Europa, os suecos saem à rua com pouquíssimas restrições. Já na Bielorrússia, o Presidente Alexander Lukashenko faz jus aos estereótipos: a sua recomendação é combater a covid-19 com vodca e banhos de sauna.

«Eles estão a encaminhar-nos para a catástrofe», avisou Cecilia Söderberg-Nauclér, uma investigadora sueca de imunologia, do Instituto Karolinska. Se noutros países a inação governamental não é absolutamente surpreendente, na Suécia, como noutros países nórdicos, há grande tradição de transparência e intervenção estatal. «Não estamos a testar o suficiente, não estamos a rastrear, não estamos a isolar o suficiente - deixámos o vírus andar à solta», explicou Söderberg-Nauclér ao Guardian. Não é a única cientista sueca em pânico - mais de dois mil assinaram uma carta pedindo medidas mais apertadas ao Governo.

Enquanto isso, a vida continua como sempre na Suécia, apesar de já se terem registado mais de 300 mortes e 6 mil casos de covid-19 no país. As fronteiras continuam abertas e as crianças continuam a ir à escola - fecharam apenas os secundários e as universidades. Só foram proibidos eventos com mais de 50 pessoa, pediu-se a pessoas com mais de 70 anos que evitem contacto social se, aos outros que lavem as mãos e trabalhem em casa, se possível - pouco mais.

O mundo observou em choque as ruas cheias de gente em Estocolmo, com os cafés, restaurantes, ginásios e até cinemas abertos. «No último fim-de-semana, os suecos ainda desfrutaram do sol de primavera, sentados em cafés a mastigar arenques fumados», noticiou o Economist. «Os parques infantis estão cheios de crianças a correr e a gritar», lê-se no New York Times.

Mas muitos suecos também olham de volta para o mundo. Sabem da tragédia em Itália - com mais de 115 mil casos registados e 13 mil mortes - e que Espanha já ultrapassou as 117 mil infeções e 10 mil mortes. Nas notícias suecas também se viram imagens de hospitais em colaspso, dos funerais à escala industrial em Bergamo, o Palácio do Gelo tranformado em morgue em Madrid. Na Alemanha já há mais casos registados que na China, mais de 5 mil pessoas morreram em França. 

«As pessoas começam-se a perguntar: são os outros que são estúpidos e paranoicos? Ou é a Suécia que está a fazer as coisas mal?», explicou ao Guardian Orla Vigsö, professor de comunicação na Universidade de Gotemburgo. Mesmo assim, muitos mantêm o seu apoio ao Governo: 44% dos suecos têm grande confiança no primeiro-ministro Stefan Lofven, segundo uma sondagem de março da Novus - em fevereiro eram 26%.

‘Imunidade de grupo’

A estratégia da Suécia parece a mesma com que sonhava o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, antes das críticas o obrigarem a recuar. A expressão «imunidade de grupo» - deixar a população ser infetada para criar resistência, algo geralmente acompanhado por campanhas de vacinação - tem sido cuidadosamente evitada por Estocolmo, mas a ideia está lá. E os argumentos contra medidas mais estritas são semelhantes.

«O problema com essa abordagem é que cansa o sistema», explicou Anders Tegnell, o epidemiologista que lidera a resposta sueca à pandemia. «Não se pode manter o isolamento por meses, é impossível», assegurou. Há acusações de que as preocupações do Governo são de ordem económica, em detrimento da saúde - naturalmente, os líderes empresariais posicionaram-se contra maiores restrições -, mas o histórico de Lofven, um antigo sindicalista, líder do Partido Social-Democrata da Suécia, silenciou as críticas nessa frente.

«Claro, vamos entrar numa fase da epidemia em que vamos ver muitos mais casos nas próximas semanas, mais pessoas nas urgências. Mas isso é como qualquer outro país - em lado nenhum se conseguiu diminuir o alastrar consideravelmente», comentou Tegnell, que defende o isolamento sobretudo dos mais vulneráveis, como as pessoas com mais de 70 anos - deixando o resto a cargo do bom senso da população. «De qualquer maneira, os suecos, sobretudo das gerações mais velhas, têm uma predisposição genética para o distanciamento social», brincou Carl Bildt, antigo primeiro-ministro.

Se a expectativa é o aumento da imunidade à covid-19 na Suécia, o preço será elevado. Mesmo em Wuhan, epicentro inicial da pandemia, menos de 10% da população terá ficado imune, após mais de 2400 mortos, estimou Gabriel Leung, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Hong Kong, em declarações à Nature - seria necessário entre 50% a 70% para atingir a imunidade de grupo.

Frio, saunas, vodca e medo

Na terça-feira, o Presidente da Bielorrúsia, Alexander Lukashenko, decidiu ir a um estádio, assistir a um jogo de hóquei no gelo. «Não há nenhum vírus aqui. Viram algum a voar por aqui? Eu também não os vejo», brincou, usando proteções nos joelhos e um capacete de hóquei, rodeado de milhares de pessoas.

Para o Presidente bielorrusso, há pouca coisa melhor que o desporto e o frio do ringue contra a pandemia - «é o verdadeiro medicamento antiviral», garantiu. Melhor, talvez só mesmo ir às banya, as tradicionais saunas bielorussas, e beber vodca, para «envenenar o vírus», explicou.

Talvez o trabalho também seja um bom remédio para Lukashenko: os restaurantes, fábricas e empresas continuam a funcionar a todo o vapor, sem grandes medidas de segurança, segundo a Associated Press.

O Presidente, um dos mais autoritários líderes das antigas repúblicas soviéticas, governa há mais de um quarto de século os quase 10 milhões de habitantes da Bielorrússia, entalada entre a União Europeia e a Rússia. Se na Suécia são dadas justificações científicas, mais ou menos discutíveis, à falta de medidas, Lukashenko optou por algo mais simples: «É melhor morrer de pé do que viver de joelhos», declarou. Muitos bielorrussos podem discordar - mas terão de ter muita coragem para o expressar.

‘Isto são os Estados Unidos’

Nos Estados Unidos, as políticas para mitigar o alastrar da pandemia são uma manta de retalhos. Mesmo assim, pelo menos 90% do país - ou seja, cerca de 300 milhões de pessoas - já estão sob regras de isolamento, entre ordens das autoridades estaduais ou de câmaras municipais.

Vários estados, como o Texas, o Alabama e o Iowa continuam a resistir a fazê-lo. Contudo, outros já cederam, como a Florida e Georgia, na mesma semana em que o número de casos nos EUA ultrapassou os 259 mil, com mais de 6600 mortos - e mais de 241 mil pessoas em tratamento.

Entretanto, Nova Iorque, o epicentro do surto norte-americano, é devastada pelo surto. Surgem cada vez mais focos por todo o país, em Detroit, Chicago e Nova Orleães, e aumentam os relatos de falta de testes, de medicamentos e de proteção para médicos. Enquanto isso, os estados disputam estes recursos, em vez de serem divididos pelo Governo federal mediante a necessidade - e teme-se uma avalanche de casos.

«Vamos ser honestos, em que país é que vivemos? Isto são os Estados Unidos, que são liberdade, liberdade para escolher», lembrou Brian Joens, dono de um restaurante no Iowa, famoso pelo seu lombo de porco. «Quando recebemos notas do Governo, a dizer para fazer isto ou aquilo, não foi para isso que foi construído este país», criticou, em declarações ao USA Today.

‘Medinho’

No Brasil, que já ultrapassou os 8 mil casos registados e as 340 mortes, os governadores não só não recebem ordens do Presidente para maiores restrições, como este tenta desmontar as que impuseram. Jair Bolsonaro, que qualificou o covid-19 como «gripezinha», criticou as medidas pelo seu impacto económico, e explicou esta quinta-feira que os governadores de estados como São Paulo ou o Rio de Janeiro têm «medinho» de apanhar o vírus.

Muitos brasileiros parecem também ter «medinho»: a aprovação dos governadores, em média, disparou dos 26% em março para os 44% em abril, segundo sondagens da Pesquisa XP. Já a percentagem de pessoas que vê o governo como «ruim ou péssimo» passou dos 36% para os 42%, no mesmo período.

Bolsonaro tomou nota do recado: ao longo da última semana referiu-se várias vezes à pandemia como algo sério - com alguns deslizes pelo meio. O Presidente continua apostado em acabar com as restrições em estados como o Rio de Janeiro ou São Paulo, mas mudou o nome da campanha publicitária. Agora, já não se chama «o Brasil não pode parar», optando pelo menos polémico «ninguém fica para trás».