Desporto

Mancha. Os rivais do canal

Desde 1905 que Jersey e Guernsey (mais os fraquinhos de Alderney) disputam uma das competições anuais mais antigas e renhidas de sempre.

Ilhas do Canal. Neste caso, Canal da Mancha. Curiosamente, antes do Reino Unido ter optado pelo Brexit, já não faziam parte da União Europeia. Ou melhor: nunca fizeram. Porque, vendo bem, também não fazem verdadeiramente parte da Grã-Bretanha, ou do Reino Unido. Estatutariamente são dependências da Coroa. Isto é, simplificando, pertencem à rainha Isabel, segunda do nome. Num português que parece ter deixado de se usar, as Ilhas do Canal são formadas pelo bailio de Jersey e pelo bailio de Guernsey, as duas principais, havendo ainda umas mais pequenas: Alderney, Sark e Herm. No total, têm cerca de 170 mil habitantes, sendo 8% portugueses. Acrescente-se que Ilhas do Canal é um designação que não corresponde de forma alguma a uma unidade política já que tanto Jersey como Guernsey têm as suas próprias leis e órgãos representativos que são eleitos localmente.

Se tudo rola sobre esferas no entendimento político e social, quando chegamos ao futebol deparamos com uma rivalidade notável, sobretudo por estarmos a falar de um lugar que raramente nos perpassa pela memória a menos que estejamos urgentemente necessitados de abrir uma off-shore. Como acontece em território britânico, esteja ele diretamente dependente da Coroa ou não, as competições têm tendência para ser muito antigas. Foi, portanto, em 1905, que Jersey, Guernsey e Alderney resolveram organizar uma prova anual entre as seleções das três ilhas. E levam-na tão a sério que só foi interrompida por duas vezes ao longo da sua história, devido ao advento da I e da II Grande Guerra.

 

Meio medieval...

Os habitantes das três ilhas olham para os confrontos entre elas de uma forma um bocado medieval. Assim como se estivessem envolvidos numa justa, ou coisa que o valha. Alderney, com os seus pouco mais de dois mil habitantes faz o papel de saco de pancada. Até hoje só ganhou um Muratti Vase, a taça que é patrocinada pela marca de tabaco com o mesmo nome. Foi em 1920, batendo Jersey na final (1-0), depois de ter tramado Guernsey na meia-final pelo mesmo resultado.

Prevejo que venha aí uma questão pertinente. Como é que uma competição que só tem três participantes se dá ao luxo de fazer disputar meias-finais? Resposta pronta e em duas versões: antes de 1945, um sorteio decidia quais as duas equipas que se defrontariam para garantir lugar no jogo decisivos, cabendo à terceira ir direta para a final como acontece com a ida para a cadeia no Monopólio que no meu tempo valia o doloroso castigo de deixar de ganhar os dois mil escudos que valia uma volta ao tabuleiro. A partir daí, e perante as fragilidades excessivas de Alderney, passou a sortear-se qual das duas outras equipas tinha de passar pelo pró-forma eliminatório. Está-se mesmo a ver, e nem é preciso perguntar, que a final se disputa ora em Guernsey ora em Jersey.

Os 53 troféus até agora conquistados por Jersey tem tornado, nos anos mais recentes, a vitória na Muratti Vase quase numa obsessão para os de Guernsey. Defendem os habitantes de St. Peter Port, a principal cidade da ilha, que ao contrário do que acontece com Jersey, quem vive em Guernsey é fortemente local, com ligações sanguíneas muito estreitas. A razão dessa teoria é simples: muitos de Alderney e de Guernsey emigram para Jersey enquanto o contrário não se passa o que faz que a seleção de Jersey não seja, como dizer?, bacteriologicamente pura.

O esforço para recuperar o atraso em relação ao rival tem sido trabalhado em profundidade. Com 46 taças na vitrina, ainda serão precisos mais uns anos para atingir o primeiro posto desta corrida tão a dois Mas, pelo caminho, queixam-se os de Jersey que os vizinhos cometeram uma abominável traição.

 

Os portugueses e o conflito

A Jersey Football Associaton foi fundada em 1905, bem mais tarde do que a sua congénere de Guernsey, que data de 1893. Duas filosofias se contradisseram rapidamente. Enquanto Guernsey promoveu um campeonato interno disputado por equipas representativas de regimentos (mais tarde independentizaram-se da tropa mas, na sua maioria, mantiveram os nomes), como foi o caso dos Northeners AC, dos Royal_Fusilliers ou dos Guernsey Rangers, Jersey estabeleceu uma liga copiada da liga inglesa logo em 1905. Enquanto a primeira enfraquecia, dando lugar ao râguebi, a segunda fortalecia-se ano após ano. Chegou ao ponto de ter cinco divisões. Nos dias que correm, apesar da Jersey FA fazer parte da Federação_Inglesa de Futebol, a liga de Jersey não está inserida no sistema competitivo do futebol inglês. Um dos clubes que disputa a atual Jersey Championship (II Divisão) é o Jersey Portuguese FC, que como o nome denuncia foi fundado por emigrantes portugueses. O fenómeno dessa emigração surgiu em meados do século passado, com gente vinda sobretudo da Madeira em busca de ocupações sazonais. Neste momento, a terceira geração de nossos compatriotas evoluíram em termos sociais e, em vez de trabalharem na construção civil, nas cozinhas ou na agricultura, já entraram em força na função pública e noutro tipo de empregos mais qualificados.

Entretanto, em Guernsey, o mais famoso de todos os jogadores locais, Matt Le Tissier, antigo jogador do Southampton e internacional pela Inglaterra, resolveu seguir outro caminho. Em 2011 criou o Guernsey Football Club, arrebanhou todos os melhores jogadores da ilha e, com o atrevimento próprio de quem teve carreira vistosa no futebol, candidatou o clube à English Football League System. Ou seja, levou os ilhéus para a Grande Ilha da Mancha, participando atualmente na Isthmian League, uma divisão regional que alberga clubes de Londres e de East e South East Anglia, proeza inédita que nunca tinha sequer passado pela cabeça dos muito limitados dirigentes do futebol das Ilhas do Canal.

 Ora bem, os de Jersey não encararam com bons olhos esta opção, até porque contribui para a evolução natural dos seus únicos rivais. Poderíamos tirar dúvidas sobre a matéria no próximo dia 16 de maio, na final da_Muratti Vase, mas ninguém acredita que até lá o futebol nas ilhas da Mancha regresse aos relvados.