Cultura

Ming Chu Hsu. A padroeira chinesa nesta hora de aflição

É muito pouco, quase nada, o que se sabe sobre a milionária investidora chinesa que fez doações no valor de 4,6 milhões de euros ao nosso país em equipamento médico para ajudar a travar a pandemia. Com investimentos avultados no sector imobiliário português, Ming Hsu diz que a sua grande paixão é a filantropia. Sinalizada no caso Paradise Papers, é imensamente discreta, mas talvez não esteja familiarizada com a advertência popular: Quando a esmola é demais, o pobre desconfia.

 

Ming Chu Hsu – é esse o nome que por alguma razão António Costa não quis pronunciar. Talvez por receio de lhe comer sílabas a mais (convenhamos que não há muito que roer ali), como faz tanto com a nossa língua, acabando por desrespeitar inadvertidamente a milionária chinesa que havia acabado de fazer uma doação de 80 ventiladores ao nosso sistema de saúde. Pode, no entanto, haver outros motivos, algumas incertezas sobre esta empresária que tem apostado no sector imobiliário português, levando a que, por cautela, o primeiro-ministro se tenha abstido de referir o seu nome numa entrevista dada à televisão há algumas semanas. Mas convém fazer uma ideia sobre quem é esta mulher que diz ter uma paixão pela filantropia e que, através da sua promotora imobiliária de luxo, a Reformosa, ofereceu equipamento médico a Portugal no valor de 4,6 milhões de euros. E isto mesmo que o contorno se limite a informações bastante vagas, recolhidas aqui e ali, numa espécie de negativo traçado a partir dessas brochuras onde se vai desenhando a biografia triunfal dos donos das grandes fortunas. Quanto a Ming Chu Hsu, sabe-se que nasceu em Taiwan, mas é segredo o ano, e, portanto, a sua idade. Lidera uma espécie de consórcio, com a maior parte das empresas sediadas em Hong Kong, cidade onde reside. Aos 17 anos, deixou a pequena nação insular onde nasceu, a qual, do ponto de vista da China, não passa de uma província insubordinada, que mais tarde ou mais cedo há-de ser reconduzida ao rebanho, se preciso for, com o uso implacável da força, esse atributo que leva a que Pequim se tenha transformado num híbrido entre a profusão das frentes em que o capitalismo, como um vírus, actua e se espalha, e hierarquia medonha e essa lógica do poder que funciona como terror burocrático e que caracteriza a degeneração da utopia comunista.

De acordo com a nota biográfica que fornece a Columbia Business School, Chu Hsu passou as duas décadas seguintes em Nova Iorque, tendo feito formação superior na área da matemática e das finanças na Universidade de Nova Iorque. Em 1992, recebeu o seu MBA. Trabalhou durante uns tempos em Wall Street e integrou depois a Texcomm, empresa fundada pelo jornalista norte-americano Tex McCrary, onde se terá familiarizado com essa ténue fronteira entre os media e as relações públicas, o jogo de influências e o entretecer dos interesses privados na narrativa que domina a percepção pública. Depois de dar por terminada a parte académica da sua formação, na Columbia Business School, fundou a sua própria empresa, a TRM, lançando no sector imobiliário. E não demoraria muito para que o seu nome surgisse nos quadros de empresas em Inglaterra, Hong Kong e África do Sul, e nas mais diversas indústrias, fosse a mineira e aeroespacial, a publicidade e o marketing ou o imobiliário. E se o site Macau Business tentou, a certa altura, perceber quem era esta mulher que estava a lançar a sua rede por uma tão vasta área de negócios, referindo a dificuldade que foi obter dados sobre o seu percurso, e caracterizando Chu Hsu como uma empresária que em tudo observa uma extrema discrição. Nas suas raras intervenções, tem insistido que aquilo que verdadeiramente a motiva e a apaixona não é criar empresas ou enriquecer mas a possibilidade de se dedicar à filantropia. Ora, como a filantropia pode ser usada como uma arma de dissuasão em massa, sendo uma forma de abrir portas, penetrar certos círculos sem levantar suspeitas e, em períodos de colapso, é o modelo de marketing ideal. Até parece mal vir levantar duvidas quanto às boas intenções de quem, num momento de aflição, põe ao dispor a sua fortuna e influência para acudir a um país com tantas necessidades como o nosso. Em tempos de emergência, ninguém quer ser esquisito com as doações que podem ajudar a salvar vidas, mas, ainda assim, há que espiolhar as fontes, fazer perguntas, tirar as ilações possíveis a partir das escassas pistas e dessas migalhas que vemos espalhadas de forma nada aleatória, numa espécie de código, e que talvez nos possam dizer de onde vem e para onde apontam certos investimentos. Como bem se sabe, a filantropia serve muitas vezes como um leque, e tanto dá para refrescar o rosto se o calor aperta ou uns rubores sobem às faces, como é útil para esconder a expressão enquanto se tecem redes de influência.

Ming Hsu vive com o marido e dois filhos em Hong Kong, e tem visitado Portugal com alguma assiduidade, e já há uns anos tinha feito uma doação de dois milhões de euros à Nova School of Business & Economics para a construção do novo campus da Universidade em Carcavelos. Um dos aspectos nebulosos para o qual apontou a investigação do Macau Business foi o facto de o nome Ming Hsu ter sido sinalizado no caso “Paradise Papers”, que se liga a uma fuga de informações de uma série de empresas offshore que têm estado a ser alvo de exame por parte do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. A milionária chinesa que tanto interesse tem revelado por Portugal criou uma outra empresa, a Meformosa, recorrendo à Leslela Internacional, uma offshore localizada nas Ilhas Virgens Britânicas. Há, assim, uma nuvem de secretismo que gera desconfiança, e mesmo se doou agora estes 4,6 milhões de euros em equipamento médico para ajudar Portugal a fazer frente à pandemia do novo coronavírus, nos últimos anos, os investimentos feitos pela Reformosa no sector imobiliária ascende às centenas de milhões. Só no empreendimento de luxo Bloom Marinha, em Cascais, foram investidos 100 milhões, e há outros investimentos em Lisboa e em Setúbal. Ming Hsu tem estado atenta à campanha de saldos face ao desmoronamento do Grupo Espírito Santo entre outros, e, de acordo com o Expresso, terá tentado adquirir alguns dos campos de golfe que pertenciam às empresas de Ricardo Salgado, mas foi impedida por ordem judicial. Da última vez que esteve em Portugal, em dezembro passado, além de ter feito uma visita à Universidade Nova, Ming Hsu visitou o Instituto do Plasmas e Fusão Nuclear, tendo conhecido os projectos Pegasus e Voxel na companhia do presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira. Agora que o nosso país se precipita numa crise económica que nos deixa perante um cenário bastante lúgubre, parece ser a altura certa para esta empresária se ocupar de nós, pois o que não vão faltar é oportunidades para realizar a sua paixão pela filantropia, e, entretanto, sempre pode ir às compras, já que a campanha de saldos que se avizinha será certamente imperdível.