Conta-me como vai ser

Só nos restam as tascas

Este momento não é para nos rendermos. A esperança move montanhas e sem esperança só nos restam as tascas. Mas, por enquanto, elas ainda estão fechadas.

Há dois anos, Aki Kaurismäki, um dos poucos cineastas vivos cuja obra respeito verdadeiramente, terminou a conversa sobre a sua visão do estado do Mundo e dos seus líderes, na cerimónia em que lhe atribuíram a Medalha de Ouro do Círculo de Belas Artes em Madrid, com a seguinte frase: «Mas esta não é uma reunião para nos rendermos. A esperança move montanhas e sem esperança só nos restam os bares. Vamos a um bar.»

Acho que poucos, em tão breves palavras, disseram tanto sobre a vertiginosa queda dos valores humanos nas últimas décadas face à subida dos valores económicos.

Creio que o surgimento deste vírus teve o dom de fazer com que os líderes do Mundo e da Moeda não tivessem outra opção a não ser assumir que há muito desistiram do ser humano, em favor da produtividade, seja lá do que for.

Estamos - alguns privilegiados e outros que não temos como trabalhar - fechados em casa, enquanto as fábricas de tudo e mais alguma coisa obrigam os seus empregados a laborar diariamente (terão meio metro de distância de segurança?), as autarquias mantêm as obras, sei lá de quê, sob a pena do despedimento. Parece-me um claro momento em que quem já muito tinha possa ter ainda mais, quem já muito pouco tinha ter ainda menos.

Quero continuar a pensar que a arte tem um ponto de ruptura claro com a matriz económica de produtividade. Não se pode pedir a ninguém que componha x óperas em y dias, ou que escreva w livros em z anos.

E no cinema (e creio que em todas as artes, embora não conheça tão de perto) era essa ideia de produtividade que exponenciava a cada dia, tal curva dos casos de pessoas que contraem o vírus, tapando a falta de política para a cultura de todos estes governos, e dos órgãos que a integram presos a instituições: toda esta parafernália de agentes culturais, directores artísticos de eventos, festivais, distribuidoras mundiais de filmes portugueses, que aproveitam essa falta de política, tal qual os donos das Vidas ou Padarias Portuguesas, que nem abutres rodearem o artesanato fílmico, vendendo-o tal e qual como se vende um perfume Chanel. Mais, com certificado de exclusividade do nível «só à venda no Continente»: «um filme só cá passa se for estreia no nosso festival!», «se não formos nós a distribuir o teu filme, não filmas mais!».

Conjuntamente, alguns ditos realizadores criados por estes agentes, assumem o acto de filmar como o trabalhar nas condições católicas dessas mesmas fábricas: de segunda a sábado, talvez, para não falhar a missa, pagando miseravelmente aos técnicos que fazem os seus filmes, tal qual o empresário da empresa que criticam nas suas obras mestras.

Dentro deste quadro, acho que este não é o momento para nos rendermos. A esperança move montanhas e sem esperança só nos restam as tascas. Mas por enquanto elas ainda estão fechadas.

André Gil Mata
Realizador