Internacional

A reabertura da Europa?

Em Espanha, milhares de trabalhadores voltaram ao trabalho, fazendo malabarismo entre o medo do desemprego e da covid-19. Itália levantou algumas restrições e Merkel é pressionada para fazer o mesmo.

 

Ninguém duvida que a guerra contra o novo coronavírus está longe de ser ganha. Mas até alguns dos países mais afetados, como Espanha e Itália, começam a levantar as restrições mais estritas, permitindo que setores não essenciais voltem a funcionar. Ao mesmo tempo, apostam na entrega de materiais de proteção ao público: 10 milhões de máscaras serão distribuídas pelas autoridades espanholas a partir desta segunda-feira.

Para os milhares de operários fabris e da construção civil, que não podem de forma alguma trabalhar de casa, a decisão é agridoce. Por um lado, diminui o receio de não ter comida na mesa - Espanha perdeu 900 mil empregos desde meados de março. Por outro, esses trabalhadores dirigem-se a locais de trabalho onde a partilha de ferramentas é frequente e onde se debruçam muitas vezes sobre as mesmas superfícies.

“Não sei por que raio temos de voltar se não há forma de estarmos separados”, queixou-se Rafael Antúnez, um carpinteiro de 53 anos que falou com o El País no metro de Madrid, usando uma máscara de pintor no rosto. “Só espero que os meus colegas também trabalhem de máscara. Senão, estamos f******”, desabafou.

É fácil compreender a preocupação: apesar da quebra nos novos casos de covid-19, só na segunda-feira registaram-se 517 mortes em Espanha - um número aterrador, mesmo sendo inferior às 619 mortes de domingo.

“Ainda estamos longe da vitória, do momento em que recuperamos a normalidade nas nossas vidas”, admitiu o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, este fim de semana. Já o seu homólogo italiano, Giuseppe Conte, assegurou que as medidas de isolamento social continuarão pelo menos até 3 de maio. Contudo, a partir de hoje haverá exceções para alguns serviços, como livrarias ou lojas de roupa para crianças.

Também as autoridades locais levantaram restrições. No Véneto, acompanhar o nascimento de um filho foi considerado essencial e poderá haver almoços de família, em casa, nos feriados de 25 de abril - quando se celebra o fim do fascismo em Itália - e de 1 de maio. Além disso, já se pode fazer exercício físico a mais de 200 metros de casa.

“Obviamente, não são quatro ou cinco quilómetros, não têm de se preparar para uma maratona”, salientou ontem o governador da região, Luca Zaia. E, claro, mantém-se a obrigação de usar sempre máscara, levando luvas ou gel desinfetante. “Quão preocupado estou, de zero a dez? Oito”, declarou Zaia. “Dentro de uma semana veremos se os números subiram ou não”. 

 

Esperança entre receios Não são só os trabalhadores espanhóis e italianos que estão preocupados com o regresso aos seus empregos. Na Áustria, tudo foi encerrado a 16 de março, exceto supermercados e instalações de saúde. Agora, lojas com menos de 400 m2 poderão reabrir a partir de terça-feira, seguidas de cabeleireiros e até centros comerciais, a 1 de maio.

Já os hotéis terão de esperar por meados de maio. Todos os eventos públicos serão proibidos pelo menos até junho e a obrigação de uso de máscara em supermercados e farmácias passou a abranger outras lojas e os transportes públicos. 

“Claro que estou contente por poder voltar a abrir”, disse Thomas Kaschowitz, dono de uma loja de roupa de homem no centro de Viena. “Mas não creio que o sentimento na população seja o de que tudo está bem, porque o vírus ainda está por aí”, explicou à DW. Com mais de 14 mil casos registados na Áustria e 368 mortes, “a situação em si mesma precisa de melhorar”, notou Kaschowitz.

 

Decisão complicada Outros países europeus ponderam medidas semelhantes. Na Alemanha, apontada como exemplo no combate à covid-19 por apostar em testes massivos logo no início do surto, o Governo de Angela Merkel vai discutir o assunto esta quarta-feira.

A chanceler é pressionada até pelo próprio partido. Aliás, Armin Laschet, governador da Renânia do Norte-Vestefália e candidato a sucessor de Merkel, já pediu um “regresso responsável à normalidade”, em declarações à ZDF. Afinal, a economia da Alemanha, dependente das exportações, foi duramente atingida, prevendo-se que encolha até 9,8% no segundo trimestre de 2020 - a maior quebra alguma vez registada, mais do dobro que no rescaldo da crise de 2007-2008.

“Embora a pandemia vá continuar a moldar a vida económica e social nos próximos meses, é necessário desenvolver critérios e estratégias para um retorno gradual à normalidade”, escreveu em comunicado a Academia Leopoldina, em cujo parecer o Governo alemão se baseará nas discussões desta quarta-feira.