Opiniao

Não somos todos iguais

O momento extraordinário que se instalou na sociedade, leva-nos a reflectir sobre muito do que somos individualmente mas, ao mesmo tempo, do que colectivamente queremos ser. 

A discussão do modelo social a que estávamos acomodados certamente necessitará de eventuais transformações em dois níveis: no da responsabilidade individual e compromisso que teremos de estabelecer com o País e, por outro lado, no do modelo político capaz de corresponder aos desafios presentes, mas sobretudo de compromisso com as novas e futuras gerações. Tem sido dito que provavelmente Portugal, a Europa e o Mundo que conhecemos até aqui, nunca mais serão os mesmos. Se assim é, a minha geração tem a responsabilidade de reorientar a bússola para que o destino não seja o mesmo.

Hoje compreendemos com naturalidade, sem as reservas de há dois ou três meses atrás, a importância de elegermos verdadeiros líderes e não apenas políticos de trincheiras partidárias. Homens ou mulheres conscientes dos lugares que ocupam, sem tacticismo ou eleitoralismo, com sentido patriótico, abertos ao mundo e com capacidade de missão e de visão; porque é sobretudo nos momentos difíceis que os Estadistas se diferenciam dos estacionados.

Percebemos agora que os valores de uma sociedade judaico–cristã se revelam como imprescindíveis na construção do indivíduo; que a solidariedade e o espírito de dedicação aos mais débeis não se adquirem em nenhuma transação comercial ou se negoceiam em bolsa. No fundo, hipotecamos gerações por temos perdido tempo demais a discutir os valores da sociedade, em detrimento da sociedade de valores.

O que está em causa, por isso, é uma consciencialização pública; aproveitemos este novo tempo para avaliar a importância colectiva das decisões que tomamos.

As circunstâncias actuais apenas colocam a nú a falência de um modelo social e assistencial, onde o socialismo - mais uma vez - faliu. Haja a coragem de o dizer, sem pudor e sem amarras. É tempo de aprender que a dinâmica controladora de um Estado segregador das iniciativas da sociedade civil apenas resulta no nosso falhanço enquanto nação.

Até há bem pouco tempo se apontava a morte como solução para a vida e não se queria discutir os verdadeiros problemas de um Sistema Nacional de Saúde, pelas pontas na sua capacidade de resposta, por pueril birra ideológica que recusa a partilha de recursos com o privado mas que, em plena crise, clama pela sua ajuda ou requisição.

Nesta birra de agenda unicamente estatal, perseguiam-se as IPSS’s, mas em plena crise usam-se as mesmas como moeda de troca na defesa dos mais velhos.

Assaltaram-se as empresas através dos impostos, olhava-se para os empresários como os maus da fita desta história, mas em plena crise pede-se  ajuda e criam-se campanhas para que, com o seu capital e trabalho, se adquira material de protecção para profissionais de saúde e ventiladores, porque o que lhes cobraram de impostos, aparentemente, não foi suficiente para garantir os mínimos.

Arruinou-se o País com as PPP’s das autoestradas, que em momento de resguardo nacional e com as vias desertas, se pagam 675 mil € por dia nestas parcerias ruinosas, mas em plena crise pede-se às Associações de Bombeiros Voluntários que façam o transporte e auxílio dos doentes de COVID por 2€ a cada intervenção.

Quiseram-se destruir valores perenes da sociedade portuguesa, apontou-se o mundo rural como  anacronismo histórico, como grande poluidor e genocida dos animais; desvalorizaram-se as forças de segurança para defender os incumpridores e quis-se pintá-las como infestadas de preconceitos raciais; desinvestiu-se numas Forças Armadas relegadas à condição de mera curiosidade histórica; desrespeitaram-se os valores de qualidade, exigência e autonomia no ensino, em prol de desorganização, facilitismo e centralismo.

Como se tudo isto não bastasse, em pleno período de emergência nacional, volta-se a querer cavar mais o fosso entre funcionários públicos e trabalhadores do privado, patrocinando também conflito de classes entre trabalhadores e empregadores.

Este desequilíbrio social entre portugueses aparentemente de primeira e de segunda é plenamente intencional, tem uma agenda ideológica e será sempre o ventilador do socialismo.

Se tivéssemos um Estado menos colonizador da economia, mas eficazmente regulador; um Estado menos presente nas nossas vidas, mas capaz de libertar as nossas famílias nas suas aspirações; um Estado menos viciado na subsidiação, mas mais respeitador da iniciativa privada; o que seria então do Estado e do socialismo?

O primeiro subsistia, já o segundo falia. Pois no dia em que a generalidade dos cidadãos não dependam quase unicamente do Estado para as suas vidas, o socialismo tem os seus dias contados.

por Francisco Peres Filipe Mota