Conta-me como vai ser

Novo futuro?

A situação social atual, marcada pela pandemia, abriu novos debates e renovou várias tendências. Opto pela abordagem do papel do Estado e das políticas públicas, num contexto estritamente nacional, e pela abordagem ao processo de globalização, ou melhor, à sua evidente alternativa, a desglobalização.

Não esqueço o novo papel das relações interpessoais, a nova economia digital que se impulsiona, a valorização das relações de proximidade ou a nova geopolítica à escala global, entre muitos outras tendências. Mas o número de carateres manda mais!

Esta nova época foi surpreendente, entrou portas dentro sem aviso e deixou-nos à mercê das nossas fragilidades. Esmagou o debate das ‘potências’, fossem elas económicas, militares ou culturais. Abriu, desde logo, o debate sobre o papel do Estado e dos serviços públicos e da sua relevância para a economia e para o desenvolvimento. Um debate que parecia ultrapassado.

Estas semanas têm sido pródigas em posições desenvolvimentistas tão surpreendentes como o próprio vírus. Não é raro ouvir ilustres liberais a apelar ao Estado nestas dificuldades, o mesmo Estado que abominam quando tratamos da criação de riqueza e da redistribuição. Não é incoerência nem oportunismo ideológico. É mesmo o claro reconhecimento do efetivo papel do Estado, da sua importância social, económica e desenvolvimentista, coisa de que só se lembram quando os prejuízos crescem.

É certo que se percebe o drama económico. Mas, para podermos alinhar num modelo de desenvolvimento onde o papel do Estado é proclamado perante as crises, importa não espezinhar o Estado (e, já agora, as pessoas) quando os lucros se acumulam.

Não sei se teremos o retorno em força do reconhecimento do papel do Estado. Mas pelo menos teremos o reconhecimento da sua importância desenvolvimentista; e isso já é um passo. A existência de um serviço público de saúde, a existência de uma escola pública, ambas coabitando com a iniciativa privada, mas nunca lhe sucumbindo, vai fazer toda a diferença nos números finais e na intensidade da dor que todos sofreremos.

Paralelamente, esta nova época renova um debate que já estava estafado (não pelo desinteresse, mas pela monotonia argumentativa) sobre a globalização. De facto, a globalização tornou-se o novo apogeu do desenvolvimento, sem se perceber que ela diferia muito pouco dos tradicionais modelos de capitalismo, agora docemente acomodados numa nova terminologia.

Prometia a universalização da riqueza e da coesão à escala mundial, mas também a interdependência das políticas económicas e outras. Bastou um abanão na estrutura para se ouvir um dos mais relevantes líderes mundiais a tentar demonstrar a sua grandiosidade: encomendaria todas as vacinas em exclusivo para o seu país, num raciocínio tão abominável quanto neo-fascizante.

De facto, parece evidente que se reforçará, em alternativa, um novo processo de desglobalização, um composto desenvolvimentista assente nas relações (sérias) de interdependência mundial, mas também no retorno ao nível local e aos seus potenciais desenvolvimentistas, ao potencial endógeno como fermento do crescimento, mas também à valorização das relações e das práticas territorializadas, em detrimento dos modelos ditos universalistas de vida cultural, social e económica.

Neste processo de desglobalização, voltarão ao debate as endogeneidades, as identidades, as especificidades, os localismos. Relativizaremos o modelo dito globalista. Reafirmaremos as raízes, as raízes culturais, identitárias, mas também as raízes das relações de interdependência e de comunicação territorializada.

Neste contexto, quem sabe se mais relacionado com a primeira questão (o papel do Estado) ou com a segunda (a desglobalização), fica reforçado algo que andava um pouco à deriva no debate público: o papel das lideranças. De facto, perante esta crise, as lideranças têm assumido o seu papel diferenciador. Onde temos líderes que prestigiam o seu lugar institucional, que trabalham arduamente e com eficácia, temos países e territórios mais protegidos. Onde temos populistas, demagogos ou diletantes, percebemos que as pessoas são deixadas ao seu azar.

Por uma vez, mostra-se que os líderes (políticos ou económicos) não são todos iguais. Que isso sirva para que as pessoas voltem à política e à democracia, única forma de impedirmos a trumpização dos países ou das cidades. Nunca como agora foram relevantes as ações das pessoas e a reformulação dos seus paradigmas. É também por aqui que passa um novo futuro.

por Eduardo Vítor Rodrigues
Presidente da Câmara Municipal de Gaia
Presidente da Área Metropolitana do Porto
Sociólogo