Cultura

Hayao Miyazaki. Num limbo entre a fantasia e a realidade

A série documental 10 Years with Hayao Miyazaki acompanha o realizador japonês ao longo de uma década e durante criação de dois filmes. Através da discreta lente de Kaku Akurawa somos convidados a conhecer os rituais e detalhes do trabalho de Miyazaki.

O dia de Hayao Miyazaki, aclamado realizador japonês de filmes de animação como Viagem de Chihiro ou O Castelo Andante, começa com um estranho ritual. Este entra no seu estúdio privado todos os dias às 10 da manhã e começa por cumprimentar o espaço vazio. Podemos ver este ritual na série documental 10 Years with Hayao Miyazaki, do realizador, Kaku Akurawa, que durante uma década serviu como sombra do mestre da animação. Num desses momentos, Akuwara pergunta-lhe: «Mas quem é que está a cumprimentar?». «Estou a dizer bom dia aos residentes», explica Miyazaki, enquanto o documentário mostra imagens de kodamas no filme Princesa Mononoke, pequenos espíritos que o realizador desenhou e incluiu na longa metragem de 1997. «Não sei quem são, mas eles estão aqui».

O documentário foi integralmente disponibilizado online na semana passada pela NHK, e a cortesia desta empresa japonesa de rádio tornou-se notícia por todo o mundo. Não é caso para menos: o realizador japonês de 79 anos é um dos mais influentes cineastas do mundo, com diretores como Wes Anderson, Guillermo del Toro a declarem-se seus fãs ou os estúdios da Disney-Pixar a revelarem que, por vezes, recorrem aos filmes do estúdio Ghibli (criado em junho de 1985 por Hayao, Isao Takahata, também realizador, e o produtor Toshio Suzuki) «para resolverem os seus problemas criativos».

«Com o Miyazaki sentimos a natureza e momentos de paz, um tipo de ritmo que não existe na tradição da animação americana», explicou numa entrevista Wes Anderson, que recorreu ao trabalho do japonês para ir buscar inspiração para o seu último filme, Ilha dos Cães, uma animação em stop motion estreada em 2018. Apesar de o documentário se focar em diversos aspetos da vida do realizador, nomeadamente em como este está a aceitar o seu envelhecimento ou a relação conturbada que tem com o seu filho, Goro Miyazaki, também cineasta; durante os quatro episódios podemos analisar através de uma lupa inédita a forma de trabalhar de Hayao. Método que foi desenvolvendo a partir dos acontecimentos que marcaram a sua vida, e que assim decalcaram o seu estilo.

No primeiro episódio as filmagens datam abril de 2006, e aqui acompanhamos o realizador no processo de criação do seu oitavo filme, Ponyo à Beira-Mar. Ponyo é um(a) peixe dourado com feições humanas e, à data das filmagens, esta era a única coisa que o realizador tinha em mente. Uma das primeiras lições que aprendemos com Miyazaki é que no início do processo nunca se sabe onde é que a história nos vai levar. «Trabalhar sem guião é a liberdade máxima de Miyazaki», descreve o narrador.

Quando o mestre se encontra com um bloqueio criativo a sua solução é sair de casa. «Não posso estar apenas na secretária. As ideias surgem do inesperado», diz. E através da lente de Akurawa acompanhamos Hayao pelos subúrbios japoneses enquanto procura por ideias. Vemo-lo em portos e a olhar contemplativamente o mar ou a colocar uma câmara de vídeo no carro para gravar a viagem e mais tarde desenhá-la - uma das formas que encontra para tornar a sua animação mais autêntica.

Ao contrário dos realizadores convencionais, que começam por imaginar o filme com storyboards, os filmes do japonês começam com imagens. Assim que compila os primeiros desenhos de Ponyo e tem a ideia de como criar os seus cenários convida o animador de personagens e o desenhador de cenários ao seu estúdio privado para começar a delinear o que vai ser feito.

Quando as ideias estão mais estruturadas e o processo de animação começa, Miyazaki sai do seu estúdio e junta-se ao restante staff nos estúdios Ghibli. Aqui, uma centenas de trabalhadores, desde animadores de personagens, desenhadores de cenários e designers de cores estão dependentes da imaginação de Miyazaki, que, para além de criar os desenhos a que os animadores têm que dar vida para o grande ecrã, ainda verifica um a um os desenhos feitos à mão pelos restantes.

Durante este processo vemos o realizador a fumar cigarro atrás de cigarro e a mudar a sua expressão facial. «Expressão de quem está a trabalhar no seu limite», descreve a mesma voz. O processo é longo e metódico e muitas vezes, não fosse a procura pela perfeição uma das marcas do realizador, centenas de desenhos são atirados para o lixo.

Este nível de detalhe é evidente numa das sessões de exibição do filme, onde os animadores comentam que uma curta cena demorou uma semana a fazer. Já no quarto e último episódio, baseado no making of de As Asas do Vento, filme que seguiu Ponyo, uma cena de 7 segundos, que mostra uma multidão enorme, demorou um ano e três meses a ficar concluída. «As multidões não devem ser compostas por pessoas sem expressão. Desenhem-nas com mais cuidado», podemos ouvir o realizador a dizer aos animadores.

A sua dedicação é evidente ao longo do filme. «Deves estar determinado a mudar o mundo com o teu filme, mesmo que nada mude», diz-nos logo no primeiro episódio. «Quero que as pessoas se divirtam, essa é a minha motivação. Talvez assim mereça viver», confessa no segundo. No final do documentário, depois de termos visto Miyazaki a levar dois filmes a bom porto, de ter confessado que pela primeira vez na sua carreira chorou com um dos seus filmes [As Asas do Vento] e de termos presenciado as debilidades da sua idade, como a dificuldade em agarrar os lápis com a mesma firmeza, o mestre da animação anunciou a sua retirada.

Apesar de, entretanto, ter anunciado o seu regresso com How Do You Live?, supostamente, o seu último filme, que deverá estrear em 2021, ficaremos para sempre com as suas lições de autenticidade e sinceridade nos filmes que nos ofereceu. «Se verdadeiro à tua arte, sem qualquer tipo de pretensão», diz-nos no documentário. «Gostando ou não, o filme deve ser um reflexo do realizador e não há volta a dar. O meu maior arrependimento seria fazer um filme que não fosse verdadeiro com o meu coração. Não seria capaz de fazer outro filme».