Internacional

Sérgio Moro arrasa Bolsonaro e bate com a porta do Governo

Antigo juiz da Lava Jato diz que nem no tempo de Dilma Rousseff houve tentativas de interferência política como agora. E afirma mesmo que a sua assinatura foi falsificada no decreto de exoneração do diretor da Polícia Federal, homem da sua confiança.


O ministro da Justiça do Brasil anunciou hoje a sua saída do Governo, acusando Jair Bolsonaro de querer interferir nas investigações da Polícia Federal e de estar “muito preocupado com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal”. Numa declaração que fez hoje ao país, o antigo juiz da Lava Jato afirma mesmo que nas últimas horas o diretor da Polícia Federal foi exonerado pelo Presidente brasileiro contra a sua vontade, afirmando ainda que a sua assinatura foi colocada no despacho sem o seu conhecimento, o que pode configurar crime.

“Não assinei esse decreto, soube pelo Diário Oficial da União”, atacou Sérgio Moro, explicando que já há muito que Bolsonaro mostrava intenção de tirar Maurício Valeixo da direção da Polícia Federal: “O Presidente sempre insistiu em trocar o diretor. Mas eu sempre quis uma causa […], uma falha de desempenho. O que eu vi sempre foi um trabalho bem feito, um trabalho que estava sendo positivo”.

“A questão não é tanto quem colocar, mas porquê trocar e permitir uma interferência política”, frisou o antigo juiz, revelando que Bolsonaro não pretende ficar pela demissão do diretor da Polícia Federal: “Disse que havia intenção de trocar superintendentes, com o do Rio de Janeiro, sem que também fosse apresentada uma razão”.

A expressão interferência política na Justiça foi por diversas vezes utilizada pelo até aqui ministro, deixando escancarada a porta para uma destituição do atual Presidente, no cargo há 480 dias. Juízes do Supremo Tribunal Federal já admitiram que o relato de Sérgio Moro consubstancia crimes de Bolsonaro.

 

Moro diz que nem no tempo do PT houve tantas interferências

Outra das duras acusações a Bolsonaro, surgiu quando Moro garantiu que o Presidente lhe transmitiu que queria ter à frente da Polícia Federal – que tem a seu cargo diversas investigações que visam a sua família, nomeadamente os seus filhos – alguém da sua confiança, a quem pudesse pedir informações e “colher relatórios”.

“Veja se a ex-presidente Dilma ligasse para o superintendente no Paraná  [para pedir informações quando estava no poder]. A autonomia é fundamental num estado de direito”, sublinhou o ministro, referindo que tais interferências nunca aconteceram “durante a Lava Jato, a despeito de todos os problemas dos governos anteriores”.

E justificou a sua saída com o compromisso que fez pelo respeito das regras do estado de Direito: “Tinhamos um compromisso e estou sendo fiel a esse compromisso”

Acrescentou também que nestes dias procurou alternativas a abrir uma crise política em plena pandemia, mas que tal foi impossível e que agora é hora de empacotar as suas coisas e seguir em frente. “Abandonei os 22 anos de magistratura. É um caminho sem volta, mas quando assumi sabia dos riscos. Vou procurar adiante um emprego. Não enriqueci”, assegurou Moro, concluindo que “independentemente de onde esteja sempre [estará] á disposição do país, mesmo neste período da pandemia”.

Esta é a segunda saída de peso em poucos dias. A primeira foi a do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que defendia o isolamento social como forma de travar a pandemia do novo coronavírus no Brasil e assim evitar o colapso do sistema de saúde.

 

Investigação da Polícia Federal tem filho de Bolsonaro na mira

Ontem foi tornado público que a Polícia Federal tinha identificado o filho de Jair Boslonaro, Carlos Bolsonaro, como o metor de uma rede de fake news que visavam a reputação do Supremo Tribunal Federal e o Congeresso.

No mesmo inquérito, os investigadores pretendem apurar quem deu início ao movimento pró-ditadura que ocorreu no último domingo e no qual participou o Presidente.

São vários os casos investigados pela Polícia Federal a visar direta ou indiretamente os filhos do atual presidente.