No meio de nós

Sou completamente estúpido!

Abri as notícias num site de informação e fiquei completamente estúpido! Não queria acreditar no que estava a ler! Por isso, dado que era de uma entrevista dada a uma rádio, quis eu próprio ouvir com os meus ouvidos, não fosse o título da notícia ter um sensacionalismo picante. Entrei no site da rádio e ouvi mesmo que era verdade o que estava escrito em várias notícias.

A segunda figura de Estado tinha mesmo dito que «seria completamente estúpido fechar a Assembleia da República no 25 de Abril». Incrédulo e ainda a cambalear, fiquei ainda mais estúpido. Era mesmo verdade! Mas não se ficava por aqui. Ferro Rodrigues recusa o uso de máscaras na Assembleia da República, durante as comemorações e justifica: «Então, nós íamos mascarados para o 25 de Abril?».

Realmente o presidente da Assembleia da República tem razão. Porque haviam os nossos deputados de prescindir de celebrar a liberdade num dia tão importante para a democracia portuguesa? Porque haviam de meter máscara numa celebração oficial tão marcante para os portugueses?

O que me deixa mais espantado não é o que pensam os nossos políticos, mas o que, na realidade, chegam a pensar e a dizer. Principalmente, porque o que se está a dizer com estas palavras é uma coisa muito simples: o que os portugueses estiveram a fazer nestas semanas de confinamento, foi uma coisa completamente estúpida!

Quando li estas palavras veio-me à memória dois funerais que fiz. Habitualmente o luto tem rituais de celebração próprios que ajudam os vivos a aguentar a dor. Por isso, as pessoas acompanham os doentes, estão a seu lado, fazem velórios, pedem a padres que rezem, entre muitas outras coisas. Frente à dor da morte quase todos os portugueses tiveram de prescindir de organizar funerais e velórios, foram diretamente ao cemitério e com uma breve oração despacharam o morto.

Num dos funerais tive de tirar fotografias ao momento do funeral para enviar para os filhos. Não puderam vir assistir, estavam longe. Não havia aviões, nem viagens, nem mobilidade possível. No funeral estava eu e uma cunhada. Mais ninguém. Estamos nós e o deserto do cemitério que se erguia no silêncio das angustias de tantas famílias.

Também assisti ao sofrimento de tantos que celebraram os seus aniversários sozinhos, em casa, sem ninguém. Estamos em confinamento. Mas eles sabem que é importante! Sabem que é para nos ajudarmos uns aos outros.

Vi filhos chegar às portas dos pais e não poderem entrar dentro das suas casas para os abraçar, cumprimentar, confortar. Tantos que chegados à porta de casa dos avós, carregados de compras, se tiveram de retirar para as suas casas sem dar grandes conversas.

Vi o Cardeal-Patriarca de Lisboa celebrar a Páscoa com a ajuda de um padre, um diácono, dois acólitos e, imagine-se uma pessoa única a cantar. O Papa a fazer a Via-Sacra na Praça de São Pedro, cheia de nada, num vazio habitado de uma multidão de sofrimentos sem rosto.

Ninguém imagina como me sinto ridículo andar na rua, de preto vestido, de cabeção, como mandam as regras eclesiásticas, e um pano na boca para proteger os outros. Sinto-me como aqueles cães perigosos que saem à rua com um açaime. Ridículo, é assim que sinto. Parafraseando o presidente da Assembleia da República, sinto-me ‘mascarado’.

No fundo, no fundo, o que podemos depreender de tudo isto é que andamos por aqui a fazer umas estupidezes, porque as leis que se aplicam a uns, não se aplica a outros. Porque se estas leis se podem aplicar à Assembleia da República não se poderiam aplicar também às minhas igrejas? Eu que tenho nove pessoas a assistirem à missa num espaço onde cabem cento e cinquenta?

É por isso que a política se distancia cada vez mais da vida dos seus eleitores!