Opiniao

Não contem comigo para ficar quietinha e calada

As medidas de apoio por parte do Ministério da Cultura são manifestamente insuficientes
e quase ofensivas.

por Fernanda Lapa
Atriz, Encenadora, Diretora da Escola de Mulheres-Oficina de Teatro e Professora Catedrática Convidada

Só a minha reconhecida teimosia me faz levantar da cama de manhã com a convicção absoluta que nada, nem ninguém, me conseguirá fazer parar de trabalhar. Claro que estou, como dizia o poeta José Gomes Ferreira, cheia de «saudades do futuro» – o futuro com os meus colegas de Teatro, no nosso espaço de espetáculos, desbravando um texto, que já comecei a desbravar em casa, criando personagens a partir das propostas do autor e dos intérpretes e, já que o Teatro é, nas palavras de Bernardo Santareno, a mais carnal de todas as artes (também a dança, acrescento eu), repensando as relações possíveis entre os atores em palco e entre os actores e o público possível.

Sei que nada será como dantes. Sei que muito do tecido teatral português não vai sobreviver a esta catástrofe que se abateu sobre toda a Humanidade. A situação das gentes das Artes de Espetáculo é devastadora: o desemprego, a imediata incapacidade de fazer face às despesas do dia a dia, a fome, o desespero, o sentimento de abandono e de desconfiança por parte da grande maioria dos trabalhadores de teatro, são a realidade atual e não vale a pena tentar tapar o Sol com a peneira.

As medidas de apoio por parte do Ministério da Cultura são manifestamente insuficientes e quase ofensivas – apoios máximos, na ordem dos 400 euros mensais, aos artistas e técnicos, os chamados ‘intermitentes’ que há longos anos lutam, com o estigma da sua precariedade, por um lugar digno a que têm direito, na construção de um Serviço Público de Cultura para Todos. Muitos deles, com a sua generosidade e para servirem um Público sem rosto, oferecem gratuitamente nas redes sociais, espetáculos, recitais, tudo enfim que lhes dê a hipótese de se sentirem vivos, criativos e amados.

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