Opiniao

Os velhos

Recordo a imagem: Um agente da Polícia a mandar uma ‘idosa’ para casa com modos arrogantes, ameaçando-a de a levar à força caso não obedecesse. Só lhe faltou dizer: «Vai para casa, velha, se não fores a bem vais a mal!».

A questão é grave. António Costa dizia um dia destes, com a maior naturalidade, que as pessoas dos grupos de risco têm de ficar em confinamento até à descoberta da vacina.

Dito de outra forma, os velhos (e as pessoas doentes) vão ter de continuar metidos em casa.

E, como antes de um ano e meio – na melhor das hipóteses –, a vacina não estará disponível para a maior parte da população, isto significa que os velhos vão ter de ficar em casa até fins de 2021.

Mas alguém acha isso possível?

E será razoável?

Hoje, ao fim de mês e meio de confinamento, admito que a situação de algumas pessoas já seja crítica.

Como estarão os velhos que vivem sozinhos e não podem ter a visita de familiares?

E aqueles que vivem em casas insalubres, húmidas, desgraçadas, e as únicas alegrias que tinham eram os momentos em que saíam à rua?

E os que vivem em casa de familiares onde o ambiente é já de cortar à faca, com crianças aos berros, os pais a mandá-las calar, os velhos assistindo impotentes a tudo, com medo de falar por se sentirem em situação de favor?

E os que vivem em lares e deixaram de ser visitados por filhos e netos?

E os que não tinham outro entretém na vida senão irem para o jardim jogar às cartas com amigos?

Como estará hoje toda esta gente? E o que será dela ao fim de quase dois anos metida em casa sem poder sair?

Recordo três imagens desta crise.
Um agente da Polícia a mandar uma ‘idosa’ para casa com modos arrogantes, ameaçando-a de a levar à força caso não obedecesse. Só lhe faltou dizer: «Vai para casa, velha, se não fores a bem vais a mal!».

Um guarda da GNR a mandar um carro que transportava um casal de pessoas de certa idade dar meia volta, intimando o condutor a ir levar a mulher de regresso a casa, porque «não são precisos dois para levar uma carta ao correio». Como se fizesse alguma diferença a mulher ir para casa naquela altura ou daí a meia hora.

A indignação de jornalistas e comentadores perante um grupo de velhotas a dançar alegremente num lar, sem máscaras e de mãos dadas.

As pessoas perderam a noção de humanidade. Esqueceram-se de que nem só de pão vive o homem.

Veem o ser humano como um invólucro sem alma. O que é preciso é salvar o corpo – o resto pouco interessa.

Ora, o ser humano é uma unidade. Corpo e espírito são uma e a mesma coisa. Não são coisas separáveis. Mata-se uma pessoa matando-a fisicamente – mas também se mata matando-a psicologicamente. Matando-lhe a alma.

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