Internacional

Xawara waxo "Quando essas doenças chegam ao nosso território ninguém sobra"

O novo coronavírus está a fazer os índios mais velhos reviverem o pesadelo do sarampo. As lideranças contam aos jovens o que viveram entre 1960 e 1980 e suplicam para que não saiam das terras indígenas. Nem sempre são ouvidas. Mas o desastre já está à porta – na capital do Amazonas o número de mortos quadruplicou. O b,i. fez uma viagem (à distância) pelo dia a dia dos Yanomani e dos Apurinã em tempo de pandemia. Veja os vídeos das entrevistas aos líderes destes dois povos.

O jovem índio Yanomani havia saído da sua aldeia – Rehebe, nas margens do rio Uraricoera, no Estado de Roraima – para continuar o ensino fundamental brasileiro. É algo comum. Alvanei Xirixana tinha apenas 15 anos. Partiu da chamada Terra Indígena Yanomani para a Terra Indígena Boqueirão, no município de Alto Alegre. Ali, também sob a alçada de uma liderança indígena, estava mais próximo da cidade, para o bem e para o mal.

Poderia ser uma história como a de tantas outras crianças que cedo têm de abandonar a família para poderem sonhar com um futuro melhor. Mas a 17 de março o corpo do adolescente começou a dar sinais de que alguma coisa não estava bem – sentia sobretudo dificuldade em respirar – e Alvanei foi hospitalizado. Desde o primeiro instante que os médicos suspeitaram de meningite. Ainda assim, os sintomas abrandaram e, com o fecho das escolas devido ao novo coronavírus, o jovem índio acabou por rumar de novo à sua aldeia, para junto dos seus pais. Mas o problema não tinha passado. Dias depois voltou a piorar e, a 26 de março, teve de regressar ao Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, onde ficou logo nos cuidados intensivos. Foram precisos dois testes para que os médicos comprovassem o pior: o Xawara waxo havia mesmo chegado aos Yanomani.

«Vocês falam pandemia coronavírus, a gente fala na nossa língua Xawara waxo», conta ao b,i. Dário Kopenawa Yanomani, membro de uma comunidade que hoje se estima ter 26 mil indígenas no Brasil a ocupar uma área de nove milhões de hectares, nos estados de Roraima e do Amazonas.

Quando o jovem recebeu o diagnóstico de infeção por coronavírus, tinham passado exatamente sete dias desde a reunião entre o secretário Especial de Saúde Indígena (SESAI), Robson Santos da Silva, e o presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Marcelo Xavier, em que estes acordaram «ações conjuntas de prevenção e controle do coronavírus em territórios indígenas». De pouco valeu ao pequeno Alvanei o que ali fora decidido. Ainda conseguiu lutar durante duas semanas com o vírus, tendo, segundo o médico Joel Gonzaga, da SESAI, perdido a guerra «com o comprometimento cerebral, tromboembolismo e complicações da resposta inflamatória do vírus.»

Foi o primeiro choque para os Yanomani. O único até agora. Mas que trouxe muitas memórias más de outros tempos.

 

Pode haver ‘um genocídio’, como o do sarampo

«Essa doença é muito perigosa, tanto para sociedade não indígena, como para os povos da floresta ou índios isolados, como falam os brancos», desabafa Dário Yanomani, admitindo mesmo que se a pandemia do novo coronavírus chegar às aldeias «pode tornar-se num genocídio».

Marcos Apurinã, líder do povo Apurinã, também não está otimista com os próximos tempos: «Se acontecer essa epidemia invadir uma aldeia nossa, isso será uma catástrofe. Numa aldeia todo o mundo está junto. Os nossos caciques estão dizendo já ‘Não entra ninguém, nem sai ninguém das aldeias, essa é a melhor proteção que temos hoje e temos de usar gel e máscaras quando for possível’».

Muitas vezes, porém, não é nem será possível. Para este líder do povo Apurinã falta muito material nas estruturas de apoio ao indígena: «O Governo Federal, através do Ministério da Justiça, liberou 11 milhões de reais para a FUNAI atender os povos indígenas, mas às estruturas locais não chegam essas iniciativas».

E para já o receio vem do passado. Entre 1960 e 1980 a invasão dos garimpeiros, intrusos que entram nas terras indígenas em busca de ouro, deixou um rasto de destruição e morte - 15% da população Yanomani desapareceu, grande parte devido ao sarampo.

«Há muitos anos, quando os primeiros invasores chegaram à terra Yanomani morreram muitos. Os membros mais velhos ainda hoje se lembram de epidemias como o sarampo. Em algumas comunidades os velhinhos são testemunhas e eles falam: ‘Essa doença [o novo coronavírus] não é brincadeira, porque há muitos anos já morreram muitas pessoas. Não queremos mais isso’», conta o representante desta comunidade indígena, reforçando os pesadelos que o vírus que teve início na China está a fazer os mais velhos reviverem: «Naquela altura quase caiu o volume de população Yanomani com o sarampo e, por isso, os mais velhos que sobreviveram sempre falam agora: ‘Quando essas doenças chegam ao nosso território ninguém sobra’».

Conselhos não faltam, mas nem sempre há ouvidos para os acolher. É que as terras indígenas não são exceção no que toca ao lado aventureiro dos mais novos. «Hoje em dia, no Brasil inteiro e no nosso território, onde entram alguns costumes, os jovens não mais respeitam as lideranças mais velhas, tal como na cidade. Os jovens querem viver a vida deles, mesmo com as lideranças a falar para terem muito cuidado, a lembrar que nós não somos iguais aos não indígenas», diz Dário ao b,i., soltando um sorriso: «Mas os jovens são malucos, são como os da cidade».

E, apesar de as cidades estarem agora fechadas – o que garante que não há tentações para sair das terras indígenas –, este representante dos Yanomani está atento.

«Estou monitorando, porque sou representante da associação Hutukara [que defende os direitos da comunidade], através de radiofonia, principalmente os jovens. E estou chamando a atenção para que ninguém saia da terra Yanomani, porque a doença já está aqui próxima. [...] E eles agora estão quietos». É assim, por rádio, que muitas vezes as lideranças comunicam com o seu povo. E tem de ser assim agora, que a doença está próxima e descontrolada entre os não indígenas. Na cidade de Manaus, capital do Amazonas, por exemplo, os 30 enterros diários quadruplicaram de um dia para o outro o que obrigou já as autoridades a optarem por valas coletivas – com a prefeitura a alegar que o método de «abertura de trincheira» é algo seguido por diversos países para fazer face a uma situação destas e lembrando que ao contrário das valas comuns, esta medida «preserva a identidade dos corpos [...] com o distanciamento entre caixões».

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