‘Façam o que eu faço, não façam o que dizemos’

Londres virou a cidade dos ténis e fatos de treino, eu nunca vi tantos ‘desportistas’, mas o londrino é que sabe. Andaram uns dias a sair de casa para comprar gin e tudo criticou já que não são compras essenciais, nem exercício, nem apoio à comunidade, nem nada de caridade, ou outro motivo nobre e…

por Diogo Moreira da Cruz
 

Esta semana o primeiro-ministro Boris Johnson, ainda a recuperar da covid-19, mostrou como se faz. Tem sido altamente disciplinado, fica em casa, não sai nem para trabalhar, evitando assim novos contágios.

Agora quando falamos das indicações do Governo do Reino Unido o que ‘devemos’ ou ‘podemos’ fazer, a conversa já é outra. Dizem-nos então para não sair de casa, mas claro podemos sair para compras essenciais, para fazer exercício (uma vez por dia), mas também em trabalho. Temos o dever de proteger os mais velhos, devendo por isso evitar contacto com os mesmos, mas devemos também cuidar deles, se pudermos levar compras e fazer companhia é ótimo para evitar que sofram mais e fiquem sós. Claro que estas indicações são legítimas, mas num país que gosta de levar as regras à letra, torna-se bastante visível a confusão de afinal como nos devemos comportar.

Saí de casa uma vez esta semana, conduzi até ao supermercado para reabastecer e vi um cenário nas ruas que parecia que estava agora eu a viver numa ‘cidade olímpica’, pronta para treinar e levar-nos todos à vitória nos mais variados desportos. A explicação é obvia, tal como mencionei, o Governo anunciou que exercitar é efetivamente importante, e por isso, podemos fazê-lo uma vez por dia.

Londres virou a cidade dos ténis e fatos de treino, eu nunca vi tantos ‘desportistas’, mas o londrino é que sabe. Andaram uns dias a sair de casa para comprar gin e tudo criticou já que não são compras essenciais, nem exercício, nem apoio à comunidade, nem nada de caridade, ou outro motivo nobre e válido para sair de casa. Agora isso acabou-se, vestem o seu fato de treino e saem de casa de cabeça erguida, como quem vai numa missão humanitária de ajuda, mas não. Neste caso, vão somente comprar o gin, tal como foram a semana passada. Contudo, agora têm fato de treino, a verdadeira ‘capa de herói’ em Londres durante a quarentena.

E as notícias confirmam, fatos de treinos e ténis esgotam-se online e os preços de usados sobem. É a loucura total para todos podermos sair de casa com a desculpa visível de ‘olhem bem que estou a exercitar’. E fazê-lo uma só vez por dia também não é problema. Há quem compre cerveja, dê umas voltas a pé enquanto a bebe, para depois voltar à loja para comprar o gin ou o vinho, o qual será degustado em casa.

Escusado será dizer que o consumo de álcool aumentou substancialmente e agora começam as conversas à volta dos problemas mentais da pandemia, os problemas em casa, entre os quais a violência doméstica.

Eu não bebi qualquer álcool, bebo mesmo pouco e somente em ambiente social e já que não tenho o ‘social’ também não tenho o álcool. Mas não deixo de estar solidário e compreender quem tenha que beber algo forte depois de ler todas as indicações do Governo acerca do que ‘devemos’, ‘podemos’ ou ainda ‘teremos’ que fazer durante a pandemia.