Tautologias

Liberdade, fonte de... previsível novidade!*

Hoje não há comunismo na China, há capitalismo! Xi Jinping não é um novo Mao, mas sim a face de uma ditadura meritocrática seletiva, que reprime implacavelmente qualquer contestação à sua autoridade.

1.Os portugueses e chineses de Macau, e os que foram fugindo da China de Mao, transportam desde o berço um justificado horror ao comunismo. Um compreensível temor e desconfiança de tudo o que vem do regime chinês.

Quando Deng Xiaoping começou a demolir o comunismo e passaram a ser possíveis e comuns as visitas ao continente, muita gente nunca voltou à China... com medo de não poder sair. Tenho em casa a resistência mais sentida à análise que venho fazendo de um regime político que mudou tão rapidamente como nunca acontecera na História em qualquer outro lugar do mundo. 

Hoje não há comunismo na China, há capitalismo! Xi Jinping não é um novo Mao, mas sim a face de uma ditadura meritocrática seletiva, que reprime implacavelmente qualquer contestação à sua autoridade. O que os líderes no poder mais temem, aliás, é… um novo Mao. 

2. Em conservas fascinantes, o padre Joaquim Guerra dizia-me, com a convicção de um saber e experiência feitos: «O comunismo é na China um verniz superficialíssimo. Quando estalar, voltará a grande civilização chinesa de sempre». Palavras proféticas!

Num romance histórico sobre o massacre de Nanquim** pelo exército japonês nazi, um colecionador oferece uma peça de arte a um jovem cientista americano em troca da pequena quantia de que precisava para pagar uma dívida e fugir da cidade. «Não aceito pagar tão pouco por uma peça que sei valer 10 vezes mais!», recusa o cientista. Contrapõe o colecionador: «Não lha estou a vender, estou a oferecer-lha, e a pedir um favor em troca». E recomendou: «Não a venda logo que chegar à América. Quando a China voltar a ser o que era, valerá cem vezes mais». Valeria anos depois num leilão em NY mil vezes mais! Comprada por um capitalista chinês.

3.Quando cheguei a Macau nos anos 60, a cidade era um ilhéu rodeado de braços de mar e arrozais, onde se erguem hoje metrópoles sofisticadas, campus universitários vastíssimos, centros de investigação de ponta com cientistas de todo o mundo. Ao fundo, os montes, o verde que só nesse outro lado do mundo vi. Os soldados que me acompanharam eram agricultores do Alentejo.

O aquartelamento ficava na vertente oeste do monte cuja vertente Leste desce até ao Canal dos Patos. Na outra margem, vista a olho nu... a China! 

Os soldados conheciam toda a gente da aldeia a 200 metros de distância. O parentesco entre os camponeses, a mulher daquele, os filhos do outro. Acompanhavam as tarefas, chamavam a minha atenção para o labor incansável de sol a sol.

Um dia, um tufão impôs o hastear do sinal 10. Tinha o pelotão equipado para sair em socorro da população. Mas o céu, com a ajuda da orientação dos montes e do regime de ventos, desviou-o no último minuto. Quem nunca viveu algo idêntico não imagina a fúria do vento, a destruição à volta. Do posto de observação os soldados mostraram-me consternados a devastação nos campos. Dos belos arrozais… nada! Passados uns dias, chamaram-me para ver: os arrozais floresciam de novo!

4. Um analista  informado da política chinesa, disse-me tudo, numa síntese brilhante,  sobre o ‘milagre’ chinês: «O que Deng Xiaoping fez e bastou foi... abrir uma janela de liberdade para a criatividade e o trabalho dos Chineses».

Viva o 25 de Abril – o da liberdade!  

* Bergson escreveu «’imprevisível’ novidade».
** Hong Zheng, Nanquim não Chora, Gradiva, 2018.