O Mundo em Calções

Lamza não gostava de si próprio

Às vezes entrava em campo tão bêbado com o álcool que ingerira durante a manhã e o almoço que não sabia o nome dos adversários

Gosto sobremaneira de Svidrigailov, aquela personagem de Crime e Castigo que se lamentava tristemente: «Mete-me nojo beber; mas não me resta mais nada do que a bebedeira». Numa espécie de disputa entre bêbados, na obra de Dostoievski só se encontra outro capaz de se bater de igual para igual com Svidrigailov: o General Ivolguin de O Idiota. Ambos beberiam oceanos inteiros de vinho e vodca enquanto discutiam as raízes no universo.

Confesso o meu fascínio por figuras ébrias. Há nelas uma vontade indomável de autodestruição e uma incapacidade natural de enfrentarem o seu destino. Claro que há muita e boa gente capaz de lhes retirar a carga da metafísica: um borracholas é um borracholas e ponto final. E, geralmente, os borracholas são grandessíssimos chatos, capazes de dar cabo da reconhecida paciência de São Francisco de Assis.

Tento ver o assunto por outro prisma. Pela vertente de Stjepan Lamza, por exemplo, o maior piancho de toda a história do futebol. Um jogador de qualidade superlativa que não gostava de si mesmo. Por isso, arruinou-se a pouco e pouco.

Vila Rebar foi, antes do incêndio que o arrasou até aos alicerces, um dos bairros mais encantadores de Zagreb, no sopé do monte Medvednica. Na manhã de dia 15 de junho de 1967, ainda era possível encontrar, às portas dos bares e dos pubs, milhares de adeptos ou, pelo menos, o que restava deles fora das garrafas. Na véspera, o Dínamo Zagreb tinha cumprido um feito extraordinário, virando em casa, para 4-0, a eliminatória da Taça das Feiras frente aos alemães do Eintracht Frankfurt, que traziam um 3-0 de vantagem. Se todos os motivos são bons para beber um copinho, aquele era motivo para beber garrafinhas e pipas. Stef Lamza, o médio de ataque do Dínamo, apepinara os alemães até à protérvia. Não havia jornal que não estivesse carregado, linha a linha, de elogios à sua exibição. Muitos davam-no certo no AC_Milan ou no Barcelona.

Lamza subira ao ponto mais alto da montanha. E, ao mesmo tempo, parecia importar-se pouco ou nada com isso. Seria sempre um rapaz de bairro. «Eu era um tipo triste», confessou.

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