Cultura

Gungunhana. Preso no circo, o Leão de Gaza morreu bêbado

À maneira dos desfiles da Roma Imperial, Lisboa foi palco de uma das mais reles exibições de prepotência. O régulo e o seu séquito foram exibidos como troféus de caça, do Arsenal à Cadeia de Monsanto, em carruagem abertas que provocaram o caos nas ruas entre curiosos e gente cheia de ódio que fez chover insultos do pior.

Grotesco: parece ser esta a palavra que vem a calhar. Pelas ruas de Lisboa, desde o Arsenal até Monsanto, dava a sensação de que se repetia uma cena da velha Roma imperial. César segue na frente da comitiva, exibindo os seus exóticos prisioneiros como troféus. Os basbaques juntam-se, de baba bovina ao canto da boca, admirando a grandeza dos seus heróis, desprezando a dignidade dos derrotados. Uma das imagens mais salientes da história colonial portuguesa não passou de uma pantomima grosseira.

A tarde está no fim. Corre o dia 13 de março de 1896. Seis carruagens abertas, escoltadas por 30 praças de cavalaria, percorrem o traçado previamente definido ao longo da capital: as três primeiras exibem à populaça feroz dez mulheres de ar altivo, enfeites vistosos, altas, bonitas, carapinhas bem penteadas e, segundo um testemunho da época, mais castanhas do que pretas; a quarta é ocupada por Gó, o cozinheiro; a quinta transporta bagagens, sobretudo trouxas e esteiras para dormir; fechava a parada bacoca uma carruagem onde viajavam os ilustres capturados - Matibejane, Molungo, o Gungunhana e o seu filho Godide. Como selvagens, os que se juntavam para assistir a esta anacrónica procissão insultavam os prisioneiros e atiravam-lhes lixo sob a passividade total da polícia. A nobreza e a decência viajavam nas carruagens dos vencidos.

Ngungunhane, ou Gungunhana, o Leão de Gaza tinha medo. Um medo terrível da morte. Estava convencido de que iria ser fuzilado em Lisboa. Suplicou pela vida. Pediu a António Enes, Ministro da Marinha e do Ultramar que o levasse à presença do Rei D. Carlos. Perguntou, angustiado: «Digam-me o que querem de mim. Vou morrer? Para que lhes sirvo eu?»

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