Conta-me como vai ser...

Regressar ao futuro com ambição

Os Estados têm um papel decisivo no futuro pretendido pelo facto de ser o pagador, financiador e segurador de último recurso, devendo em simultâneo garantir não só resposta de curto prazo, mas também a recuperação sustentável a prazo. 

Regresso 

Escrevo estas linhas numa altura em que o país se prepara para uma nova fase na estratégia de combate à pandemia e aos seus efeitos económicos e sociais, uma fase que todos esperamos nos leve a um regresso seguro, calculado, mas firme da atividade regular da sociedade.  Observámos a resposta médica à crise de saúde e dos Governos para proteger a economia, mas a verdade é que o mundo mudou mais do que isso. A forma como trabalhamos, como comunicamos, como consumimos bens e serviços – até como encaramos os momentos de lazer – sofreu uma disrupção de tal ordem que dificilmente podemos dizer que iremos voltar à situação em que estávamos antes. É ainda um período de incógnitas, mas podemos desde já antecipar que a situação que o mundo viveu nos últimos meses nos fez aprender algumas lições, sendo também por todas as razões um catalisador da mudança.

Resiliência
Esta crise veio sublinhar a importância da resiliência institucional em relação à simples  maximização da eficiência imediata, e a superioridade de uma visão de médio e longo prazo de desenvolvimento sustentável, do ponto de vista económico, ambiental e social. Temos pela frente um panorama adverso, com uma forte recessão a nível mundial, com riscos de crescimento das desigualdades, de clivagens políticas e de desagregação social. É importante que percebamos bem estes riscos e que os saibamos antecipar e gerir de forma ambiciosa e equilibrada. 

Recuperação
Os Estados têm um papel decisivo no futuro pretendido pelo facto de ser o pagador, financiador e segurador de último recurso, devendo em simultâneo garantir não só resposta de curto prazo, mas também a recuperação sustentável a prazo. No curto prazo, dando prioridade à liquidez indispensável nos alvos certos – famílias e empresas mais afetadas – mas, sobretudo, no momento certo/em tempo útil. No longo prazo, contribuindo diretamente – investimento público – e indiretamente - incentivos e fiscalidade – para um modelo de desenvolvimento sustentável, económico e financeiro do ponto de vista intergeracional. E neste âmbito temos obrigatoriamente de falar da Europa, onde só um verdadeiro momento de solidariedade, de mutualização e de federalismo em novas áreas, poderá garantir o futuro deste projeto comum.

Reinvenção 
Mas vivemos também uma oportunidade de reinvenção, não só a nível individual enquanto cidadãos, como consumidores, como trabalhadores, mas também das empresas e da sociedade como um todo. Esta choque obriga-nos a procurar reduzir muitos dos fatores que tornaram a atual pandemia num desafio não imaginado com esta escala global.  Estamos não perante um simples regresso, mas sim perante a criação de um ‘Novo Normal’, num momento em que a questão do propósito das nossas instituições e, em particular, das empresas é chave. Quais são os objetivos que pretendemos alcançar? Como garantir a transparência perante a diversidade crescente de stakeholders? Como alavancar todo o potencial das empresas para beneficiar todos estes stakeholders e a sociedade? Como rentabilizar a ciência, cujo reconhecimento saiu agora reforçado? As companhias e os negócios que não souberem fazer esta adaptação a uma nova sociedade ficarão duplamente penalizadas – não só pelo impacto económico da crise que estamos a viver, como pelo desfasamento que terão em relação ao que os clientes e os colaboradores entendem como prioritário. 

Energia 
Acredito que a transição energética deve, a par com a digitalização, estar no centro do programa de recuperação económica, o que coloca o setor da energia – e por isso mesmo a EDP, pela estratégia que adaptou há mais de 15 anos -  no centro da agenda europeia. Descarbonização, energias renováveis, eficiência energética, redes inteligentes, mobilidade sustentável, estão no base do mundo novo. E as lições que podemos retirar do passado recente só nos tornam mais fortes e focados.  Na forma como nos relacionamos com os clientes e atendemos às suas expectativas. Como gerimos a continuidade do negócio e como acompanhamos os nossos fornecedores, num redesenho da própria cadeia de valor. Na forma como encaramos o modo de trabalhar, como definimos a ocupação dos espaços e como incentivamos a interação entre todos.  Esta pandemia colocou mais de 70% das nossas pessoas em teletrabalho, obrigando-nos a testar não só as ferramentas digitais, mas também toda a articulação dentro e fora da companhia, tendo já desenhado o plano de regresso físico de forma gradual, com segurança e critério, porque temos o conforto de saber que, mesmo na situação que vivemos hoje, continuamos a entregar e a desempenhar as nossas funções graças à capacidade de adaptação e de resposta das nossas equipas.

Otimismo
Este regresso ao futuro deve ser encarado com ambição, com compromisso e com o otimismo de saber o que temos de fazer. Conhecendo a origem dos problemas, já não estamos indefesos perante tragédias fora da nossa compreensão e controlo, mas sim perante desafios com os quais conseguimos lidar, num mundo em que o conhecimento e a tecnologia não são as restrições. A questão está nas escolhas feitas por todos combate aos principais problemas do mundo de hoje: aquecimento global, agravamento das desigualdades, rutura do mercado do trabalho e papel dos dados na economia global. Se soubermos reconhecer que somos todos mais frágeis do que imaginamos, associando um sentido de propósito coletivo ao poder das empresas, o impacto pode ser extraordinário. A EDP, como sempre fez, assume esta responsabilidade. 

António Mexia, Presidente do Conselho de Administração da EDP