Internacional

Os esquecidos da linha da frente que estão a morrer em Londres

Morreram pelo menos 28 condutores de autocarros da Transportes de Londres.

Um pouco por todo o mundo, os trabalhadores da linha da frente têm sido louvados por arriscarem a vida a tentar salvar todos os outros desta crise pandémica e manter os mínimos que são requeridos numa sociedade organizada. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, trabalhadores do lixo, empregadas domésticas, trabalhadores de supermercados, agricultores. Mas alguns têm caído na sombra do esquecimento, aqueles que transportam os mesmos que nos providenciam os serviços tão essenciais. Em Londres, capital do Reino Unido, os condutores dos autocarros têm arriscado a vida e o vírus já foi fatal para quase três dezenas deles. E teme-se que as últimas medidas de proteção avançadas para a sua proteção tenham vindo tarde demais.

Embora as ruas da capital britânica se encontrem vazias e os serviços de transporte tenham sido exponencialmente reduzidos, pelo menos 28 condutores de autocarros morreram, segundo a contagem da empresa pública Transportes de Londres publicada na última sexta-feira - 37, se incluirmos todos os meios de transporte da empresa. 

Só entre os 31 mil condutores de autocarros disponíveis do ramo governamental que gere os transportes de Londres, a taxa de mortalidade de covid-19 apresenta um rácio 16 vezes superior ao dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) britânico, segundo o Financial Times. Dos 1,5 milhões que trabalham para o SNS, morreram 82 até 2 de maio, segundo o Guardian

“Penso que todos sentimos o facto de poder ser qualquer um de nós”, disse ao New York Times Lorraine, condutora de 62 anos, que não deu o seu último nome por temer perder o emprego. As condições melhoraram nos últimos dias, tendo a câmara londrina dado instruções para que os passageiros entrassem apenas pela porta de saída, para evitar o contacto com os condutores - os transportes também se tornaram gratuitos pela mesma razão, para que os passageiros não tenham de passar o cartão de entrada no autocarro. 

Mesmo assim, Lorraine disse ao diário norte-americano que as últimas semanas a abalaram e que continua a temer pela vida. “Nunca senti tanto medo, em toda a minha vida, de poder morrer”, confessou. 

Estas medidas não têm sido aplicadas em todo o Reino Unido. Por isso, alguns condutores impuseram-na unilateralmente.

Não foi só na empresa Transportes de Londres que morreram condutores. Andy Howe, que trabalhava para a empresa Medilink, que transporta os trabalhadores do SNS e pacientes, morreu a caminho do hospital depois de ter ficado doente, descreve o Guardian. Há relatos de que os autocarros não têm sido devidamente desinfetados. 

“Estamos tristes com a morte do Andy. Também estamos revoltados com os relatos que temos recebido sobre a falta de cuidados com o Andy, os seus colegas e o público em geral”, disse ao mesmo diário britânico um porta-voz do RMT, sindicato britânico do ramo dos transportes. 

Os sindicatos têm vindo a alertar para a situação em que se encontram os profissionais de transportes, além das famílias das vítimas. Dizem que as novas medidas estão longe das que é necessário aplicar, diz o New York Times, e que estas deviam ter sido avançadas bem mais cedo.

A Unite the Union, representante sindical dos condutores de autocarros de Londres, publicou um comunicado a instar o Governo para que mais seja feito, apelando às autoridades londrinas para providenciarem mais material de proteção, tais como toalhetes, máscaras e luvas para todos os condutores. 

Sadiq Khan, presidente da Câmara de Londres, do Partido Trabalhista, pediu ao Governo que tome medidas mais drásticas e que obrigue as pessoas que utilizam os transportes públicos a usar máscaras. 

“As mortes dos membros da ‘família’ dos autocarros, aos quais prestamos o nosso mais sincero tributo”, faz com que isto tenha de permanecer como “preocupação primordial” da câmara, lê-se no documento do sindicato. “As suas mortes não podem ser em vão”. 

O Reino Unido caminha para se tornar o país europeu com mais óbitos por covid-19. Segundo a Universidade John Hopkins, está prestes a ultrapassar as 29 mil mortes e já superou a cifra das 190 mil infeções confirmadas. Após Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, ter mostrado alguma resistência a impor medidas drásticas de distanciamento social, estas começaram a ser implementadas no dia 23 de março.