Tautologias

Demónios que continuam a atormentar o mundo

Quem viveu entre os chineses sabe que não passa pela cabeça de nenhum obrigar alguém a ser como ele é, a viver como ele vive. O que querem é que os deixem ser como são.

Na História, o que levou à violência e ao sofrimento mais extremos não foram as sempre evocadas razões materiais, que o marxismo teorizou: foi o impulso de uns para impor aos outros a sua forma de pensar e de viver.

Os exemplos mais terríveis desse impulso ocorreram nos séculos XIX e XX – manifestando-se hoje os seus restos no estertor da hegemonia norte-americana, nas cruzadas para levar todos os povos da Terra para o ‘lugar certo da História’.

Agora mesmo, na situação em que devia impor-se a evidência redentora de sermos um só mundo, que só unido poderá vencer o inimigo que a todos por igual ameaça, assistimos à divisão e confronto imperdoável das duas maiores potências económicas.

Pelas contingências da geografia e as peripécias da História, pelas culturas e as mundivisões assim geradas, houve sociedades humanas que, tendo sido vítimas maiores dessa pulsão – e por isso mais receosas dela –, foram melhor sucedidas na sua contenção ou sublimação.

O exemplo mais flagrante é a civilização chinesa, uma história de resistência a invasões recorrentes, vindas do Norte bárbaro. Daí, a Grande Muralha, daí, também, a primeira e a segunda anexação do Tibete e a do Xijiang, prolongamentos naturais daquela. Um sentimento histórico que a cumpre à atual direção política chinesa ter presente.

Começaram por ser invasões por hordas sem comando unificado. A que o exército chinês (que existiu sempre apenas para defender as fronteiras), com recursos de organização e tecnologia superiores, foi resistindo, por vezes recuando para Sul – reserva de campos férteis para o cultivo do arroz, vital para a população crescente.

Depois invasões por conjuntos organizados – a dos mongóis guerreiros que conquistariam a China, fazendo vinte e cinco milhões de vítimas, um terço da população!

E a última, a manchu, 75 milhões de mortos, dois quintos da população! Esta, antes do crime e da humilhação impostas pelas ‘grandes potências’ e o Japão, com o ópio e a força das metralhadoras Garling e Maxime. Por isso a China se isolou durante milénios. «Um império sem necessidades», assim lhe chamou um sinólogo.*

Quem viveu entre os chineses sabe que não passa pela cabeça de nenhum obrigar alguém a ser como ele é, a viver como ele vive. O que querem é que os deixem ser como são.

Repare-se nas formas que assumiu a presença da China no mundo, ao longo dos milénios, no respiratório das viagens de navegação de Cheng Ho. Atente-se na atitude dos cidadãos chineses pelos sete cantos da Terra, dos mais humildes, connosco desde há cerca de trinta anos. Ou, nos nossos dias, o modo pacífico, sem intromissão política, como se processa a sua expansão comercial e económica.

Deixo o leitor com um expressivo fragmento do século XIV, na ressaca da invasão mongol. Que revela o sentimento de uma superioridade civilizacional – que era um facto – mas a inexistência de qualquer agressividade humana, pessoal, nacional, de imposição ao ‘outro’:

«Existe um limite supremo a separar o Céu e a Terra: chineses de um lado, estrangeiros do outro. A única maneira de manter a ordem no mundo é respeitar este limite». (Qiu Jun, 1421-95)

Oxalá não se isolem de novo...

* Alain Peyrefitte, O Império Imóvel, Gradiva (esgotadíssimo).