Cultura

Patrick Leigh Fermor. Um vagabundo à conquista da Europa

Na Alemanha, olhavam para ele como se fosse uma ave rara quando se identificava como inglês. E ainda mais espantados ficavam quando dizia que estava a caminho de Constantinopla. Patrick Leigh Fermor ainda não tinha 20 anos quando, na década de 1930, atravessou a Europa a pé. Mais tarde descreveu a sua viagem em três volumes, o primeiro dos quais acaba de ser publicado em Portugal.

«Uma viagem de mil léguas começa com o primeiro passo», reza o Tao Te Ching, um livro de provérbios atribuído a Lao Tsé, pensador chinês do século VII a.C.

Patrick Leigh Fermor despediu-se dos amigos a 9 de dezembro de 1933, numa tarde de chuvas torrenciais, e entrou para um ferry no Tamisa com destino a Hoek von Holland, na costa da Holanda. Era o único passageiro do navio. Levava uma mochila emprestada e pouca bagagem: «um velho sobretudo» adquirido poucos dias antes num armazém de excedentes militares, «diferentes camisolas, para usar em camadas, camisas cinzentas de flanela, um par de camisas brancas de linho para ocasiões mais elegantes, um corta-vento de couro macio, grevas, botas ferradas, um saco-cama (que perderia dentro de um mês e que nunca haveria de ser substituído nem de fazer falta); cadernos e blocos de desenho, borrachas, um cilindro metálico cheio de lápis Venus e Golden Sovereign», um bordão, dois livros de poesia e a promessa de uma libra semanal. Planeava, nos meses seguintes, caminhar por longas distâncias e para isso não podia ir muito carregado.

Um mês antes tinha tido uma espécie de iluminação, como descreve no seu clássico Tempo de Dádivas, recentemente editado pela Tinta da China. «Mudar de ares; abandonar Londres e a Inglaterra e viajar pela Europa como um vagabundo – ou, na formulação original que usava comigo mesmo, como um peregrino ou um romeiro, um estudioso errante, um cavaleiro [...]. Viajaria a pé, dormindo sobre medas de feno durante o verão, procurando abrigo nos celeiros em caso de chuva ou neve».

Atravessou a Holanda com uma rapidez que o surpreendeu. Ainda antes do Natal, passados poucos dias da sua partida, estava a chegar à cidade fronteiriça de Goch, na Alemanha. Hitler tinha assumido o poder no início daquele ano de 1933. «Havia bandeiras nacional-socialistas por toda a cidade e a montra da loja de roupa de homem ao lado exibia parafernália do partido: braçadeiras com suásticas, punhais da Juventude Hitleriana, blusas para as Donzelas Hitlerianas e camisas pardas para os membros adultos das SA».

Ao final do dia, Patrick sentava-se «a uma mesa maciça numa pousada» para descansar as pernas, fumar, escrever no seu diário e apreciar uma bebida espirituosa. Assistiu a algumas discussões acaloradas sobre política. Os partidários de Hitler impunham-se sempre, por serem mais militantes, mais convictos ou simplesmente mais agressivos.
O regime nazi provocava ao jovem viajante britânico um sentimento de repulsa, quer pela perseguição que movia aos judeus, quer pela prática instituída de queimar livros. Teria, ainda assim, surpresas, como quando um castiço trabalhador em fato-macaco o convidou a dormir em sua casa e descobriu «que o quarto era um santuário de objetos relacionados com Hitler. As paredes estavam cobertas de bandeiras, fotografias, slogans e emblemas. O seu uniforme das SA, impecavelmente passado a ferro, estava pendurado num cabide». Os nazis não eram todos assassinos ávidos de sangue e destituídos de coração.

O rapto do general
Seis anos depois, quando o expansionismo nazi tornou a guerra na Europa inevitável, Leigh Fermor haveria de juntar-se às Irish Guards, as tropas de infantaria de elite do Exército britânico. Os seus conhecimentos de línguas e de geografia, em parte adquiridos ou aperfeiçoados durante a longa caminhada pela Europa em 1933 e 1934, levá-lo-iam em seguida para os serviços de espionagem britânicos na Grécia. Foi o primeiro homem da sua unidade a saltar de paraquedas e, disfarçado de pastor de rebanhos, ajudou a organizar a resistência em Creta, vivendo durante mais de um ano entre montanhas, grutas e abrigos na natureza. Ali levou a cabo uma das operações mais ousadas do conflito: o rapto do general Heinrich Kreipe, o comandante das forças nazis na ilha. «Os cretenses eram os melhores combatentes de guerrilha natos do mundo», diria mais tarde ao historiador militar Max Hastings. «Estavam sempre tão desejosos de raptar raparigas que o rapto de um general alemão lhes pareceu tremendamente divertido».
A 26 de abril, após várias tentativas, ‘Paddy’, como era conhecido entre amigos, e os seus homens intercetaram o carro do general. Vestidos com uniformes alemães, mandaram o condutor parar, imobilizaram-no com uma pancada na cabeça e tomaram o controlo da viatura.

«Paddy pôs o chapéu do general na cabeça e passou para a frente do grande Opel, enquanto três guerrilheiros se sentavam em cima do velho general semiconsciente lá atrás», escreveu Max Hastings no obituário de Leigh Fermor, publicado no Daily Mail.

«Durante as horas que se seguiram, passaram pelos 22 postos de controlo alemães e pelo centro de Heraklion [...]. Três semanas mais tarde, após uma marcha épica pelas montanhas e muitas fugas por um triz, encontravam-se a bordo de um navio de guerra britânico, com destino a Alexandria, e o general alemão sequestrado foi entregue para interrogatório». Embora as respetivas nações estivessem em guerra, o agente britânico não viu o general nazi como apenas um inimigo: ambos perceberam que tinham mais em comum do que imaginavam quando o segundo começou a recitar versos de Horácio e o seu jovem raptor continuou no ponto em que o alemão os deixara. As Odes do poeta latino eram um dos dois livros que levara na bagagem para a sua viagem pela Europa uma década antes.

Da vacaria ao castelo
Filho de um ilustre geólogo e naturalista colocado na Índia, Patrick Leigh Fermor nasceu em Londres a 11 de janeiro de 1915. «No segundo ano da Primeira Guerra Mundial, pouco depois do meu nascimento, a minha mãe e a minha irmã embarcaram para a Índia (onde o meu pai era funcionário do governo indiano) e eu fiquei para trás, para que pelo menos um de nós pudesse sobreviver se o barco fosse afundado por um submarino».

Entretanto, o pequeno Patrick ficou entregue a uma família do Northamptonshire. «Passei estes anos fundamentais e habitualmente considerados formativos mais ou menos como o filho selvagem de um agricultor: guardo recordações de uma felicidade completa e perfeita», relatou nas páginas iniciais de Tempo de Dádivas.
Não gostava de cumprir regras, e as expulsões de colégios sucediam-se. Teve uma educação irregular, atribulada, até que lhe ocorreu a ideia de atravessar a Europa a pé.

Como planeara, viajou como um vagabundo. Para se entreter, ia cantando e recitando versos pelo caminho, e dormia onde calhava. Só em Colónia, ao fim de vários dias de jornada, tomou o primeiro banho desde que saíra de Londres!
Rapidamente descobriu que o facto de ser inglês não suscitava desconfiança, pelo contrário. «Na Alemanha há uma tradição antiga de benevolência para com os jovens viajantes: a própria humildade do meu estatuto funcionava como um ‘Abre-te Sésamo’, suscitando amabilidade e hospitalidade. Uma grande surpresa para mim foi o facto de ajudar ser inglês; era visto como uma ave rara e inspirava curiosidade». Outra coisa que inspirava um misto de espanto e pena, e lhe abria todas as portas, era o nome da cidade que tinha definido como destino final, que repetia como se se tratasse de uma fórmula mágica: Constantinopla.

Numa altura de maior aperto, por sugestão de um bom homem que conhecera numa pousada para mendigos em Viena, recorreu ao seu talento artístico para fazer retratos dos habitantes da cidade e ganhou o suficiente para ambos comerem como lordes e ainda ficarem com uma reserva considerável.

Noutras alturas, viajou em grande estilo, sendo recebido em casas de burgueses bem instalados e até em castelos de aristocratas. «Depois de dizer boa noite, de percorrer, carregado de livros, um corredor cheio de armações, e de subir uma escada de pedra em caracol até ao meu quarto, era difícil acreditar que na noite anterior tinha dormido numa vacaria. Há muitas vantagens em passar da palha para uma cama de dossel e depois voltar à palha. Dentro do casulo de linho macio, embalado pelo aroma dos troncos, da cera de abelha e da lavanda, ficava, ainda assim, acordado durante horas, deleitando-me com todos estes prazeres e comparando-os, numa sensação de felicidade, com os encantos já familiares dos estábulos, palheiros e celeiros».

‘Para conquistar o mundo, há que renunciar a tudo’
Patrick Leigh Fermor teve a ventura de conhecer um mundo condenado a desaparecer. Os últimos vestígios da velha Europa que haviam sobrevivido à Grande Guerra – como os cultos e generosos castelões que o acolhiam nas suas habitações palacianas – seriam definitivamente obliterados pela Segunda Guerra Mundial. O autor fixou-os para a posteridade em retratos literários que têm o encanto das fotografias esbatidas pelo tempo.

Publicado em 1977, Tempo de Dádivas é o primeiro volume da trilogia em que o autor-viajante narrou a sua travessia do Velho Continente. Termina numa ponte sobre o Danúbio, à entrada da Hungria. O segundo volume, Entre os Bosques e a Água, foi dado ao prelo em 1986. A chegada a Constantinopla no dia de ano novo de 1935 encontra-se descrita no terceiro e último volume (The Broken Road), publicado em 2013, dois anos após a morte do autor.
Especialmente bonito e galante em jovem (foi encarnado no cinema por Dirk Bogard e as senhoras da sociedade disputavam a sua companhia), Sir Patrick Leigh Fermor manteve a vitalidade até ao fim da vida. Terminou os seus dias na Grécia, para onde se mudou na década de 60 com a mulher, Joan. Usando pedrada região oferecida pelos habitantes das redondezas, construiu uma casa em Kardamili, no sul do Peloponeso, com uma vista privilegiada sobre o mar. Mesmo nonagenário, continuava a escalar as montanhas circundantes, a passear nos olivais e a nadar no mar Jónico.

«Para conquistar o mundo, há que renunciar a tudo», diz o Tao Te Ching. Patrick Leigh Fermor partiu de Londres quase sem nada e cerca de um ano depois podia dizer que conquistara a Europa a pé. Estava a poucos dias de fazer vinte anos – a idade de Alexandre quando foi coroado Rei da Macedónia e partiu à conquista do Império Persa.