Economia

João Oliveira e Costa. O homem que se segue na liderança do BPI

Três anos depois volta-se a falar português no cargo de CEO da instituição financeira. O apelido ‘Oliveira e Costa’ é apenas uma coincidência. Com uma carreira de 30 anos no BPI tem como desafio ultrapassar esta crise provocada pela covid-19 que baralhou os resultados do banco. Apaixonado por desporto, promete manter o legado deixado pelos seus sucessores. 

Pouco mais de três anos depois, o BPI prepara-se para ter um novo CEO e, desta vez, fala português. João Pedro Oliveira e Costa vai assumir as rédeas da instituição financeira, assim que o seu nome for aprovado pelas autoridades de supervisão, nomeadamente pelo Banco de Portugal e Banco Central Europeu (BCE). Só a partir daí, os acionistas da instituição financeira irão convocar uma assembleia-geral para oficializar essa mudança. Para já, ainda não há data marcada. 

O ‘polémico’ apelido do futuro presidente executivo do banco é pura coincidência. Não há qualquer relação com o falecido banqueiro fundador do BPN. «Tenho muita honra no meu pai, que faleceu há 20 anos. Tenho muita pena que não esteja aqui neste momento. Sempre assinei Oliveira e Costa, e assinarei em qualquer circunstância», revelou, esta semana, em conferência de imprensa, durante a apresentação de resultados do BPI. Ainda assim, admitiu que está habituado a este tipo de confusões em torno do seu apelido, mas não quis deixar de esclarecer. «Não conheço em concreto o caso e não tenho nenhuma relação familiar, mas tenho respeito por quem já não está connosco». E foi mais longe: «Os meus filhos também terão orgulho em assinar o nome Oliveira e Costa».

Esclarecida esta questão, outra dúvida que se coloca é de onde vem este banqueiro? A resposta também foi dada: fez a sua carreira no setor financeiro, quase exclusivamente no BPI. João Oliveira e Costa tem 54 anos e está há 30 anos no banco. É o mais novo de três irmãos, é casado e tem dois filhos. A sua carreira começou no BCP, onde esteve dois anos, mas mudou para a concorrência em 1991 para dirigir a área de private banking. E foi aí que chamou a atenção ao ser um dos responsáveis pela evolução deste setor na instituição financeira.

Em 2000, assumiu o cargo de diretor central do negócio de private banking e premier até 2014, antes de subir à administração do banco, ainda com Fernando Ulrich como CEO, e assumiu responsabilidades pelas áreas de negócio de particulares, premier, private banking e negócios. «Revejo-me e confundo o meu perfil com o perfil do banco, não tenho um perfil específico diferente daquilo que foi e tem sido o percurso do banco», admitiu aos jornalistas. 

Uma semana antes de se saber a sua nomeação, João Oliveira e Costa tinha ido ao Parlamento para esclarecer as linhas de financiamento e moratórias disponibilizadas pela instituição financeira em plena crise de covid-19. Mas longe estariam os deputados de pensar que este seria o próximo homem forte do BPI.

DESAFIOS

Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Católica, Oliveira e Costa tem um longo desafio pela frente. Recuperar os resultados do banco - o lucro do BPI caiu 87% para 6,3 milhões no 1.º trimestre, devido aos fatores relacionados com a crise da pandemia de covid-19, nomeadamente a queda nos mercados financeiros e reforço de imparidades para fazer face a impactos futuros - e manter o legado dos anteriores presidentes da instituição financeira. Legado esse que não quer deixar passar em branco. «Pelo prestígio e relevância que tiveram», recordando Artur Santos Silva, Fernando Ulrich e ainda Pablo Forero, de quem se tornou próximo.

«Vamos atravessar um enorme desafio pela frente, em várias linhas, há um certo desconhecimento, esta é uma situação nova, e toda ela é um próprio desafio, referiu. Uma tarefa que, de acordo com Fernando Ulrich, será desenvolvida com sucesso. «Pelo seu caráter, competência e qualidades de liderança, será certamente um magnífico presidente da comissão executiva e contará com o meu total apoio», afirmou o presidente do conselho de administração. 

Ter também como acionista o CaixaBank não torna a tarefa de João Oliveira e Costa mais fácil. «Outro nível de desafio é ter um acionista da qualidade do CaixaBank, que é entidade bem organizada, de enorme prestígio em Espanha, maior organização em Espanha. Isto implica um maior grau de exigência», afirmou aos jornalistas.

Fechar o dossier Angola também estará nas suas mãos. O BPI vendeu o controlo do Banco Fomento de Angola (BFA) a Isabel dos Santos em 2017, passando a deter 48,1% do banco angolano. No entanto, a ideia seria vender a totalidade da sua participação. Uma tarefa que, até à data, não foi bem sucedida. Ainda assim, insuficiente para o desmotivar nas suas futuras funções. «Sei que conto com o apoio e a lealdade de uma grande equipa, que aprendi a respeitar ao longo de muitos anos de trabalho conjunto, baseado em valores e princípios muito fortes, que sustentam a distinta identidade do BPI», disse em comunicado, antes de concluir: «Conhecemos bem os desafios difíceis e o tempo de incerteza que nos esperam, mas sabemos também que podemos dispor dos recursos necessários para vencer e não duvidamos um segundo da nossa capacidade, da nossa vontade e da nossa determinação».

Praticante de diversos desportos, desde muito novo, e em alguns como federado, destaca o gosto pelo rugby, o golfe e por vários desportos náuticos.

REFORMA

A nomeação do novo CEO do BPI apanhou quase todos de surpresa. Pablo Forero, de 64 anos, comunicou ao conselho de administração do banco, a 4 de maio, a sua decisão de se reformar no final do seu mandato. Uma decisão que levou a indigitar Pedro Oliveira e Costa para o mandato 2020-2022. 

O espanhol chegou à liderança do banco em 2017 e no seu curriculum deixou o êxito o processo de integração do banco no grupo CaixaBank. Conseguiu ainda melhorar todos os indicadores de solidez, rentabilidade e força comercial da instituição financeira. 

«O BPI está num dos momentos mais fortes da sua história, muito motivado, bem capitalizado, com grande dinamismo comercial e por isso entendo que este é o momento apropriado para passar o testemunho a um novo presidente executivo, português, formado na casa e respeitado por todos. Sinto-me muito orgulhoso por ter sido acompanhado nestes três anos pela excelente equipa diretiva do banco BPI, sentindo sempre um grande apoio, compromisso e profissionalismo de todos os colaboradores do banco. Sempre entendi esta posição como transitória e considero agora que a minha missão está cumprida», revelou em comunicado.

Ao contrário do que se poderia pensar, Forero vai manter-se em terras lusas. Na conferência de apresentação de resultados chegou a admitir que Portugal foi uma surpresa para si. «Estou muito feliz aqui, a minha família também está muito feliz, tanto que até vamos ficar a viver aqui. Estamos totalmente apaixonados». E acrescentou: «Adoramos a comida e as pessoas». 

Mas, acima de tudo, o seu percurso ficou marcado por ter conseguido fazer uma transição calma do banco. O ainda CEO foi o rosto escolhido depois de o CaixaBank ter assumido o controlo do BPI, o que implicou mudanças na governação e na estrutura interna da própria instituição financeira. A par disso, também deixou de ser cotado no PSI20. Ter sido nomeado pelo acionista espanhol e não falar português terá provocado inicialmente alguma inquietação, mas este desafio foi rapidamente ultrapassado.

Também suceder a Fernando Ulrich, um dos nomes históricos do BPI e da banca nacional, e que esteve 13 anos à frente do banco, não foi tarefa fácil. Mas três anos depois parece que tudo ficou resolvido. E o atual chairman tem uma palavra a dizer em relação ao trabalho do seu sucessor, ao sublinhar «a forma exemplar como Pablo Forero comandou a equipa executiva, composta por quadros do BPI, o excelente relacionamento entre ambos e, sobretudo, os resultados obtidos durante o seu mandato». 

Durante este período, Forero concluiu com sucesso a realização de três grandes operações: vendeu a Viacer (SuperBock) à família Viola por 233 milhões de euros, alienou ao CaixaBank o negócio de cartões de crédito e débito (por 113 milhões) e ainda a atividade de seguros e de gestão de ativos, permitindo um encaixe financeiro de 218 milhões de euros. 

Também a reestruturação do banco foi uma das suas marcas: menos balcões e trabalhadores. E os números falam por si: no final de março, contava com 383 balcões (menos 23 do que no final de 2019) e com 4.831 trabalhadores (menos nove do que em dezembro passado), no entanto, essa redução vem de trás. Uma situação que levou Pablo Forero a garantir que o BPI tem continuado a fazer fusões na rede, acompanhando «os clientes que preferem balcões maiores». A estes há que acrescentar 36 centros premier, 34 centros de empresas e um balcão móvel.

FIGURA EMBLEMÁTICA PERMANECE

Um dos rostos mais emblemáticos do banco, agora bem mais calmo, vai permanecer no cargo de chairman. Fernando Ulrich ocupa essa função desde que abandonou a liderança do BPI. «Não há plano de mudar. Continua a ser Fernando Ulrich e esperamos que continue assim», disse Forero.

Dono de uma personalidade forte, Ulrich ficou conhecido pela sua frontalidade, impulsividade e pelo seu caráter combativo nomeadamente pelos confrontos que protagonizou com Ricardo Salgado (BES) e com Paulo Teixeira Pinto (BCP). Com o ex-dono disto tudo desentendeu-se quando este anunciou que, numa possível fusão BPI/BES, o BES assumiria uma posição dominante. Já com Paulo Teixeira Pinto trocou acusações no decorrer da OPA lançada pelo BCP sobre o BPI e que viria a falhar. Antes da queda do BES, enviou uma carta ao governador do Banco de Portugal para repor «a verdade dos factos» sobre os alertas que tinha vindo a fazer, mas que foi desvalorizada por Carlos Costa. 

Considerado «politicamente incorreto», Fernando Ulrich também provocou polémica ao propor mudanças radicais em matéria laboral, nomeadamente a liberalização total dos despedimentos coletivos e individuais e o corte nos vencimentos dos assalariados. Acabou por ficar conhecido por todos os portugueses pela sua polémica expressão «ai aguenta, aguenta» face à possibilidade do país ter de aguentar mais austeridade. Estávamos em 2012, após a apresentação do Orçamento de Estado para o ano seguinte. «Não gostamos, mas [Portugal] aguenta, e choca-me como há tanta gente tão empenhada, normalmente com ignorância com o que está a dizer ou das consequências das recomendações que faz, a querer empurrar-nos para a situação da Grécia», chegou a afirmar. 

Também dentro do próprio BPI teve de enfrentar guerras. Depois de ter sobrevivido à OPA hostil do BCP sobre o BPI, à crise internacional em 2007 com o subprime e à falência de várias instituições financeiras que deixaram marcas profundas no sistema financeiro recentemente foi obrigado a reduzir, sob ameaça de multas elevadas, a exposição que o banco tinha a Angola por exigência do Banco Central Europeu (BCE). A tarefa não foi fácil e acabou por criar conflitos com Isabel dos Santos, que se opunha à desblindagem de estatutos do BPI e à OPA do CaixaBank. Uma solução que acabou por contar com o apoio do Governo português e do Presidente da República - ao ponto de o Executivo preparar uma legislação que permitia a desblindagem de estatutos nos bancos ao facilitar o fim da limitação de votos dos acionistas. Um diploma que retirou poder à empresária angolana e que permitiu que a OPA do banco catalão recebesse luz verde. Também descontente com este desfecho ficou o grupo Violas - acionista de referência da instituição financeira, assim como os pequenos acionistas do banco que acenaram com processos judiciais para travar a operação. 

Fernando Ulrich nasceu em Lisboa, em 1952, no seio de uma família tradicionalmente ligada à banca - o seu avô paterno foi administrador do Banco de Portugal - e desde muito cedo decidiu que também iria seguir esse rumo.