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Biblioteca Pessoal: O apocalipse do elefante africano

The End of the Game documenta essa dizimação, causada tanto pela caça excessiva como pela falta de controlo da população de elefantes – que, às dezenas de milhares, acabariam por esgotar os recursos do solo e assim transformar num deserto a mesma terra que antes sustentava uma vida exuberante.

Ao tomar conhecimento da morte do fotógrafo, artista, escritor, aventureiro e ativista norte-americano Peter Beard, que desapareceu de sua casa a 30 de março e só foi encontrado (sem vida) quatro semanas depois, fui buscar à estante o seu mais famoso livro, The End of the Game (que poderia traduzir-se por O Fim do Jogo, mas também por O Fim da Caça Grossa, dado o duplo significado da palavra game em inglês).

Beard, que era uma espécie de aristocrata americano, visitou África pela primeira vez em 1955, quando tinha 17 anos, e ficou completamente rendido aos seus encantos. A ela regressaria várias vezes, publicando The End of the Game em 1965. Trata-se de um daqueles livros tão especiais que se tornam quase um talismã, um objeto mágico, que abrimos sempre com um misto de fascínio e de assombro.

Em parte álbum de fotografias, em parte ensaio, em parte diário de viagens e arquivo documental, dá conta dos tempos áureos do Quénia, em que a vida animal era tão abundante que parecia inesgotável («uma das páginas do bloco de notas de Hunter», diz-nos acerca de um desses primeiros caçadores, «regista o abate de 996 rinocerontes»).

The End of the Game documenta essa dizimação, causada tanto pela caça excessiva como pela falta de controlo da população de elefantes – que, às dezenas de milhares, acabariam por esgotar os recursos do solo e assim transformar num deserto a mesma terra que antes sustentava uma vida exuberante.

Embora apaixonado pela natureza, o próprio Beard matou todo o tipo de animais. No seu livro, relata-nos o seu primeiro tiro em África – dirigido a um hipopótamo. «A cabeça da fêmea com os seus dois olhos afastados veio ao de cima. Disparei. Nem um pássaro estremeceu enquanto ela se afundava. Pusemo-nos em pé e sacudimos os salpicos da nossa roupa. Podia demorar horas até que os gases no estômago do kiboko se expandissem e o grande corpo ficasse a flutuar de pernas para o ar. [...] Estávamos a almoçar à sombra do alpendre quando Buno apareceu a anunciar que o kiboko estava ‘na água’ e que podíamos ir agora e ‘deixar a carne ser cortada’.

Devia haver uma centena de mãos a ajudar-nos à beira do rio. […] Pusemos o hipopótamo contra a corrente, levámo-lo para uma zona pouco funda e retalhámos as duas toneladas de carne em pedaços portáteis. Divisámos, no meio dos despojos gelatinosos, a forma de borracha de um feto, inacabado, condenado a não nascer. Os cães ficaram atentos como se fosse uma grande iguaria».

Se a capa do livro exibe uma manada de elefantes sem fim à vista, as últimas páginas mostram fotografias de centenas de paquidermes em diferentes estados de decomposição. É um espetáculo que não deixa ninguém indiferente. Um espetáculo ainda mais doloroso porque documenta o desaparecimento de uma paisagem paradisíaca e a sua transformação num cenário de apocalipse – o apocalipse do majestoso elefante africano.


Coração – uma história. Sandeep Jauhar 
«Hildegarda de Bingen, mística cristã do século XII, escreveu: ‘Aalma habita o centro do coração como se de uma casa se tratasse.’ Sob muitos aspetos, o coração parece-se efetivamente com uma casa. Tem diversas divisões, separadas por portas. As suas paredes têm uma textura característica. A casa é antiga, tendo sido concebida há muitos milénios. Os fios e os canos que a mantêm em funcionamento estão escondidos da vista». O cardiologista Sandeep Jauhar, que conhece os cantos à casa, leva-nos numa visita guiada pelo órgão que bombeia o sangue e a vida. De forma envolvente, misturando episódios da sua experiência pessoal com a história da medicina, mostra os prodígios que o coração realiza, mas também as suas patologias e as suas fraquezas. 

Editora Elsinore

Preço 19,99€

Como não estragar completamente os filhos. James Breakwell 
Um livro divertidíssimo e iconoclasta sobre os erros que os pais cometem ao educar os filhos e sobre como é impossível evitá-los. O melhor, sugere Breakwell (que tem quatro filhas pequenas), é baixar a fasquia das expectativas e não se preocupar demasiado.
Editora ASA

Preço 15,50€

O livro de horas. Rainer Maria Rilke,trad. Maria Teresa Dias Furtado 
«Primeiro ciclo poético verdadeiramente acabado» do autor (como nos diz a tradutora no texto de apresentação), O Livro de Horas estabeleceu a fama de Rilke como poeta. Concebido com duas viagens à Rússia em pano de fundo, nas quais descobriu «a fraternidade e a obscuridade de Deus», é composto por três livros: O Livro da Vida Monástica (1899), de índole contemplativa; o Livro da Peregrinação (1901), marcado pela solidão e pela forte presença da natureza; e finalmente O Livro da Pobreza e da Morte (1903), onde nos surgem passagens memoráveis. «Pois a pobreza é um grande clarão que vem do interior...». Reedição da primeira tradução integral (2009), por Maria Teresa Dias Furtado, que optou por respeitar a rima.

Editora Assírio & Alvim

Preço 17,70€