Internacional

Das favelas de São Paulo às aldeias do Amazonas, vive-se o caos no Brasil

O estado de São Paulo já tem mais mortes por covid-19 que a China, enquanto a fome chega às favelas.

 

Com a pandemia a acelerar no Brasil, que já se tornou o quinto país com mais casos do planeta, os hospitais de São Paulo estão a duas semanas do colapso. Nesta megacidade, com mais de 12 milhões de habitantes, já há uma ocupação de 90% dos cuidados intensivos, avisou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, que tenta “parar a cidade” para travar o contágio - sem grande sucesso. É cada vez mais claro que é preciso coordenação entre o Governo federal, governadores e prefeitos para que o isolamento social funcione, mas o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não está disponível para esse papel. Entretanto, os estragos económicos da pandemia agravam-se, com a fome e a morte a instalarem-se nas favelas de São Paulo.

 Em Heliópolis, a maior favela da cidade, nem é certo o número de habitantes, quando mais a escala da devastação: as estimativas estão entre os 65 mil e os 220 mil residentes. O certo é que “a maioria tem um trabalho informal e está sem renda agora”, obrigados a depender de ajuda alimentar, garantiu Marcivan Barreto, coordenador da ONG Central Única de Favelas, à DW Brasil.

As pequenas, escuras e lotadas casas das favelas, sem condições de saneamento básico, são ideais para a propagação do novo coronavírus, que já causou pelo menos 30 mortes em Heliópolis - outras tantas terão ficado por registar. No resto da cidade há a noção de que a pandemia tem tudo para ser pior nos bairros mais pobres, dificultando ainda mais a vida dos residentes.

“Trabalhava como doméstica. Agora estou parada. Nenhum condomínio deixa a gente entrar, ainda mais quando sabem que a gente vive em Heliópolis”, contou Alaíde ao canal alemão, enquanto esperava, com a filha ao colo, para receber uma cesta básica. “Está faltando tudo em casa. Sem trabalho, como a gente vai comprar?”, questionou.

Como Alaíde, muitos moradores de Heliópolis trabalham fora da favela, usando transportes públicos para lá chegar - e arriscando contrair o novo coronavírus pelo caminho. O risco tornou-se maior a semana passada, com a tentativa de aumentar o isolamento social restringindo o tráfego automóvel.

 

Rodízio automóvel Já antes da pandemia, à hora de ponta, só podiam circular no centro de São Paulo veículos com matrículas terminadas num dado número - 1 e 2 à segunda-feira, 3 e 4 à terça-feira, etc. Na segunda-feira passada, a prefeitura expandiu o sistema para outras áreas, passando a durar o dia todo. O resultado? Um ligeiro aumento na taxa de isolamento social, calculada com base na deteção de telemóveis, e um pico no uso de transportes públicos, com grandes aglomerações.

“As medidas adotadas pela prefeitura têm um recorte da classe média paulista, que mora no centro expandido e tem condição de se isolar, de não depender do transporte público”, criticou Aluizio Marino, investigador de planeamento e gestão do território na Universidade Federal do ABC, ao UOL.

“A cidade de São Paulo é sócia minoritária, mas não controla o metro nem os trens”, justificou o prefeito, que levantou a medida esta segunda-feira. É que, em São Paulo, “mais de 1700 ruas começam em uma cidade e terminam em outra”, lembrou Bruno Covas, acrescentando que não dispõe de poderes sobre a polícia estadual e que a cidade não consegue entrar em confinamento sozinha.

“Me resta na manga o uso de feriados municipais”, declarou o prefeito de São Paulo, que pretende antecipar o feriado do Corpo de Cristo e o Dia da Consciência Negra - já pediu ao Governador do estado, João Dória, para fazer o mesmo com o aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. Entretanto, enquanto se debatem medidas parciais, o pico do surto em São Paulo aproxima-se.

 

Drama na Amazónia Se a situação não é fácil no estado de São Paulo, que já registou mais mortes por covid-19 que a China, é difícil imaginar o caos que se vive em pequenas cidades amazónicas como Tabatinga - já é o município com mais óbitos por habitante do Brasil.

“Os nossos hospitais não têm estrutura para receber e cuidar dos pacientes que estão com esse vírus”, avisou Eladio Kokama, líder dos indígenas kokama na região. “Nós, aqui em Tabatinga, estamos sentindo isso na pele. Só da minha aldeia já foram seis ou sete óbitos, mais os kokamas que moram nas cidades”, lamentou este fim de semana ao UOL.

Os parcos serviços de saúde de Tabatinga entraram em lotação máxima logo em finais de abril, contribuindo muito para a elevada mortalidade. Até na capital do Amazonas, Manaus, pacientes tiveram de pernoitar em ambulâncias à espera de cama, avançou na altura o G1. E ninguém esquece as imagens das valas comuns escavadas em Manaus, que circularam um pouco por todo o mundo.