Opinião

Admirável mundo novo

É tempo de fazer a limpeza da economia, criando ‘amortecedores’para suavizar o choque do encerramento das empresas que não têm futuro

 

O mundo novo, pós-pandemia, tem todas as condições para ser admirável, embora em sentido diverso do imaginado por Aldous Huxley, no romance de 1932. 

Dois meses de confinamento bastaram para que práticas correntes, tidas como definitivas, fossem expeditamente recicladas, revelando a enorme capacidade de adaptação dos povos. Estados, empresas e cidadãos descobriram que é possível fazer diferente, em escala não pressentida no antigo normal. Mudou o chip e, do dia para a noite, emergiram novas soluções… mais racionais, mais eficientes e mais limpas.

Descobriu-se que o trabalho a partir de casa pode trazer benefícios. Se vinte por cento da população ativa passar a trabalhar em casa, mais de um milhão de pessoas deixará de congestionar os transportes públicos e de entupir as estradas. A redução do consumo privado, por menor circulação, terá impacto macroeconómico, que terá de ser compensado, mas isso não diminui o valor dos benefícios para empregadores e empregados, para o orçamento das famílias e para o ambiente.

A grande descoberta é, todavia, que há um ambiente favorável à mudança, como nunca se tinha visto desde a Revolução Industrial. É todo um campo que se abre para o avanço do digital, para a robotização e para a reengenharia de processos, em tudo o que são sistemas de informação, processos de tomada de decisão e movimentação de pessoas e bens. 

Urge repensar os equilíbrios entre países produtores e consumidores, e recuperar a autonomia do Ocidente na produção de bens estratégicos. Em particular, a União Europeia terá de equacionar a restauração da solidariedade e da coesão, que falharam rotundamente no auge da crise, e avançar para a reindustrialização, distribuída pelos Estados-membros... e não confinada ao reduto alemão.

Como primeira prioridade, perfila-se a consolidação da dívida dos países do Sul, de modo que deixe de penalizar os ratings e não inviabilize o acesso a novos fundos. A calamidade não se compadece com constrangimentos orçamentais dos países onde as empresas e os cidadãos sofreram quedas de rendimento tão abruptas que só podem ser superadas com apoios financeiros imediatos. Veremos aqui o que vale a União: ou temos estadistas capazes de aproveitar a oportunidade única que pode levar ao admirável mundo novo, ou o que veremos é gente frouxa a vergar-se ao egoísmo Norte. 

Entre nós, é tempo de fazer a limpeza da economia, criando ‘amortecedores’ para suavizar o choque do encerramento das empresas que não têm futuro. Contam-se por milhares os empresários que gostariam de fechar a porta e partir para outra, mas a lei das falências não ajuda. Importa ser inovador, mas é mais necessária a rapidez na ação, que leve ao pragmatismo de privilegiar as dações em cumprimento em relação à opção de executar avales e hipotecas, que é totalmente errada no cenário de crise que o país enfrenta. Também aqui o caminho bifurca: uma das setas aponta os alvores do admirável mundo novo, a outra... o negrume do precipício.