Opinião

A calamidade do Estado

A luta que travamos todos e se traduz na exigência do estado de calamidade, impõe restrições. Por isso foi decidido impedir os concertos de verão. Por isso foi decidido evitar as grandes aglomerações ou os pequenos ajuntamentos. Perante a incomodidade do PCP, o primeiro dos ministros inventou um suave milagre. Não lhe passava pela cabeça restringir a liberdade política.

Nós sabemos que o Estado português foi obrigado a vender um banco.

E não ignoramos a artificiosa forma como o dividiu em dois, um péssimo e o outro mau e tentou dar esse caminho a este último

Transferiu-o para um adquirente que tomou precauções. Deixou à responsabilidade do vendedor créditos duvidosos e para responder a isso foi constituído um fundo de garantia.

Para que o orçamento do Estado não fosse a única vítima, outra securitária medida chamou os bancos a assumir parte da responsabilidade.

Foi fixado um limite, claro.

A expectativa era que a gestão desse banco conseguisse o impossível e se visse livre desses créditos. 

Iniciou-se, então, um exercício de otimismo.

Que não, que não seria preciso esgotar o limite. Que a ajuda duraria pouco e custaria menos. Que não, que o sistema bancário não seria afetado.

As coisas não correram assim.

Ano após ano, as injeções de capital tornaram-se inevitáveis.

Hoje aproximam-se do valor limite e mais mil milhões de euros foram assumidos.

Portanto, no fim da história se concluirá que o Estado vendeu o Banco e pagou para isso, arrastando outros bancos no duvidoso negócio.

Claro que ao Governo competiria sempre verificar o que sucedia para justificar os empréstimos.

A pressão da Assembleia da República traduziu-se na exigência de uma auditoria.

O primeiro dos ministros comprometeu-se a não transferir mais dinheiro sem que ela fosse conhecida.

O ministro das Finanças fê-lo sem respeitar essa condição.

Portanto, o que está em jogo não é uma qualquer falha de comunicação, é a falta a um compromisso.

Se o primeiro dos ministros sabia ou não sabia é um problema interno do Governo.

Se o primeiro dos ministros mostrou ignorância pelo acontecido na resposta a uma pergunta é um problema da democracia.

E das duas uma, ou o compromisso era falso, ou o primeiro dos ministros respondeu com a mesma cara com a qual disse que nada tinha faltado aos profissionais de saúde.

O certo é que, com as últimas declarações do ministro das Finanças tudo fica mais claro.

Para ele, se não houvesse pagamento era uma falha financeira que podia afetar o sistema bancário e a confiança no país. Logo, a condição da auditoria é irrelevante.

Daí que a fiscalização dos atos do Governo se reduza a papel de embrulho.

Perante a gravidade deste tema, será possível tecer mais considerações sobre outro qualquer da atualidade?

Por exemplo, o da Festa do Avante!.

É.

A luta que travamos todos e se traduz na exigência do estado de calamidade, impõe restrições.

Por isso foi decidido impedir os concertos de verão.

Por isso foi decidido evitar as grandes aglomerações ou os pequenos ajuntamentos.

Perante a incomodidade do PCP, o primeiro dos ministros inventou um suave milagre.

Não lhe passava pela cabeça restringir a liberdade política.

Ninguém lhe perguntou se a liberdade de exercício da religião era um bem menor.

A questão não é como reagem as instituições perante os factos.

Uns querendo manter uma forma de financiamento de um partido.

Outros, como a Igreja católica, preenchendo o vazio, em nome do bem de todos, com a força de um credo.

Calamitosa é a desigualdade.

Ofensiva é a deriva da responsabilidade. 

A questão é transformar o Estado em calamidade.