Desporto

Adelino da Costa. Um viajante entre mundos

Em África está tudo por acontecer, garante Adelino da Costa. Depois de passar pelo bairro das Marianas, em Carcavelos, e de conquistar os ringues de Nova Iorque, o campeão está de volta a casa. Agora, sonha transformar a sua Guiné-Bissau natal com o ecoturismo, sobretudo nas ilhas Bijagós, um paraíso perdido no meio do Atlântico.

A pandemia de coronavírus apanhou o mundo de surpresa, mas ainda mais a Adelino da Costa. Só deu por ela há dois meses, quando voltou do Arquipélago de Bijagós, atravessando o mar até Bissau e depois Lisboa. «Nem estava a perceber, não estava ligado. Quando estás nas ilhas, numa natureza daquelas, o teu dia não começa ou acaba com televisão, de maneira nenhuma», salienta o antigo campeão de kickboxing e muay thai, num português pontilhado por expressões inglesas. Quem vê o sorriso enorme de Da Costa pode não suspeitar que tem pela frente um feroz lutador, no ringue e fora dele. Antes de se dedicar ao ecoturismo nas Bijagós, que descreve como «uma reserva natural de silêncio, misticismo, contacto humano», já navegara as águas conturbadas do bairro das Marianas, em Carcavelos, para depois conquistar Nova Iorque, a murro e pontapé. Treinou com os duros dos duros, no ginásio de lendas como Muhammad Ali, Mike Tyson e Floyd Mayweather. Acabou por abrir o seu próprio espaço, o Punch Fitness Center, na Madison Avenue, no centro do centro do mundo. Foi dos primeiros a conseguir trazer riquíssimos advogados, gestores ou modelos para os desportos de combate, no início dos anos 2000 – era o início das kickboxing boutiques. Mas Da Costa haveria de regressar à sua terra natal: fez ginásios para miúdos pobres em Bissau e construiu um hospital nas ilhas Bijagós, pelas quais se apaixonou. Hoje, o fecho de fronteiras deixou-o preso em Portugal, onde, à distância, ainda organiza voluntários para levar ajuda às Bijagós, muito vulneráveis devido corte da comunicação entre ilhas, por causa da pandemia – há um risco sério de fome.

 

Sangue guerreiro

Nascido no noroeste da Guiné-Bissau, em 1976, entre o povo manjaco da Ilha de Jeta, cuja diáspora se espalhou pelo mundo fora, a viagem e o combate estão no sangue de Da Costa. «Na ilha, quando as pessoas estão a dançar, porque há um casamento, um encontro da comunidade, isto ou aquilo, estão a dançar porque vai haver luta. Começa com cinco, seis anos, faz parte da cultura, não há separação. A tradição é que todos os anos, a cada dois ou três meses, há sempre um evento desses. As pessoas sentam-se à volta de um espaço, chamado bantabá, onde toda a aldeia vai para se encontrar». Mais tarde, dedicou-se a outros desportos, mas nunca esqueceu a luta tradicional manjaca – aliás, são as primeiras imagens que tem. «Não consigo pensar em combate sem me ver com um fundinho. É um pano local, que se amarra aqui», explica, apontando para as virilhas. «Pões o óleo de palma no corpo todo, para brilhar e escorregar, depois é tipo wrestling, com toda a gente à volta. Via o meu tio a fazer isso, ou os colegas dos meus pais, dos meus irmãos. E depois somos nós».

Hoje, sentado no jardim do seu condomínio no Estoril, não muito longe da piscina, Adelino ainda soa nostálgico quando fala da sua Jeta, de aldeias, arrozais e areia branca. Mas cedo viria o tempo de partir. A sua mãe – «chamo-lhe a general», diz, entre risos – queria algo melhor para os filhos. «O sucesso está sempre relacionado com escola», explica o antigo campeão. «Por isso ela tomou a decisão: ‘Não podemos ficar na ilha. Temos de vir para Bissau para pôr o filho na escola’. E até aos nove anos ajudei-a a fazer o trabalho que todos os guineenses fazem». É que«toda a pessoa na Guiné é capaz de criar o seu próprio negócio - está a vender milho, ou a vender tomates, a vender isto e aquilo. A minha mãe começou a vender pão, e eu tinha de de estar na feira, a vender pão com ela». Subitamente, mais um passo: decidiram juntar-se ao seu pai, que na altura já trabalhava em Portugal. «Quando tens família, o foco é sempre o melhor para a família. O futuro está nos filhos, já não está em ti. Todo o teu trabalho é projetado. Então trouxeram-nos para cá».

 

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