Opinião

O dever da esperança

A solidariedade entre gerações não pode ser um slogan quando é de conveniência. Deixar morrer na valeta uma ou mais gerações não é nobre, nem é valente, nem é feito para heróis do mar. Se ainda os houver. Esta é a hora de agir e dedicarmo-nos todos continuamente a salvar vidas. 

por António Maló de Abreu
Deputado do PSD

Por estes dias de crise, causada pelo coronavírus, surgiu um apelo internacional à re-humanização da sociedade, partindo das preocupações da Comunidade de Sant’Egídio. Foi e é dramático o número de mortes nos lares de idosos e estes estão em perigo por toda a Europa, assim como em países de outros continentes.

Em Portugal, mas também um pouco por todo o lado, alguns “donos da honra e da vã glória”, fizeram passar a ideia indecente, com direito a loas e genuflexões por perda de memória histórica, de que seria possível sacrificar as vidas dos mais velhos em favor dos outros, mais novos, sãos ou menos doentes. Não é difícil até imaginar que, num trabalho de burocratas especialistas em curvas-planas, se tenha até criado uma nova e moderna métrica do direito à vida. Referindo-se a este assunto o Papa Francisco definiu-o exemplarmente como a ‘cultura do descarte’, que faz dos nossos mais velhos e anciãos apenas números e meros cacos ou mesmo restos de borda de prato, privando-os do direito elementar a serem considerados pessoas inteiras. É certo e confirmado que, em várias latitudes, a necessidade do tratamento por falta do recurso a ventiladores e suportes de vida, fez surgir um modelo que parece ter obrigado profissionais da arte e de seu ofício a um serviço seletivo de morte preanunciada. Triste, lamentável e execrável.

Por inaceitável de todo – temos direito à indignação. Onde ainda há trincheiras e onde se acolhem também ateus. A ética, o humanismo, os direitos humanos de que tanto se enche a boca e a deontologia médica alicerçam-se também em nunca fazermos distinção entre pessoas. Nenhuma urgência ou necessidade, por absurda de tão absoluta, pode impor ou legitimar exceções a princípios que nos regem e valores que guiam a nossa conduta. Há linhas vermelhas, inultrapassáveis, como é tão comum agora dizer-se. A não ter sido assim, anunciaram-se e percorremos tempos de barbárie – porque não há palavras doces para qualificar pensamentos e atos indignos.

A solidariedade entre gerações não pode ser um slogan quando é de conveniência. Deixar morrer na valeta uma ou mais gerações não é nobre, nem é valente, nem é feito para heróis do mar. Se ainda os houver. Esta é a hora de agir e dedicarmo-nos todos continuamente a salvar vidas. Sem parança e sem olhar a quem. Mesmo os mais doentes, frágeis, sozinhos e vulneráveis não são inúteis, não são trapos, nunca são um fardo e jamais poderão ser abandonados à sua triste sorte. Aqui não há fado nem sina.

Quem lê os clássicos percebe que sempre houve gente para dois mundos: o inclemente e o das vítimas da inclemência. Este não é o tempo de trair a verdade ou proteger indignidades. A todos cabe o que temos e não só o que nos sobra ou sobeja. Estamos diante de um dever de esperança nos homens de hoje – enquanto a esperança não desespera.

A vida tem, desde o seu princípio até ao seu fim natural, a mesma dignidade absoluta que deve ser salvaguardada e protegida, disse num belo texto Tolentino de Mendonça. É tudo e é quanto basta. Se soubermos ser gente.