Cultura

Transgredir o tempo e a história

Dez anos depois do seu último disco, os Pop Dell’ Arte estão de regresso com Transgressio Global, um disco onde o passado serve para a banda criar um som novo e diferente.

A certa altura no documentário Ainda Tenho Um Sonho ou Dois – A História dos Pop Dell’Arte, feito pela Antena 3, um jornalista pergunta a João Peste, vocalista do icónico conjunto português, o porquê da banda ter terminado, em 1989, ao qual o músico responde «nós somos uma banda com um determinado tipo de características com as quais não se coaduna, de forma nenhuma, a acomodação, a rotina e a repetição das coisas».

Portanto, agora em 2020, quando ligamos a Peste para falar sobre o mais recente disco da sua banda, Transgressio Global, lançado ontem pela Sony Music, esperamos encontrá-lo algo irrequieto com o confinamento gerado pela atual pandemia.

Este conta-nos que se encontra «conformado» com a situação e que até aproveitou para «encurtar» a sua pilha de livros por ler. Começou a ler José e Seus Irmãos de Thomas Mann, aproveitou para ler algumas bandas-desenhadas franco-belgas, «ajudam a descomprimir», confessa, ressaltando alguns títulos como Murena, Gato do Rabino ou o Escorpião.

Esta é uma primeira vez para o vocalista e a banda, assim como todos os músicos do setor. Lançar um álbum e não ter oportunidade de o apresentar ao vivo. «Foi um balde de água fria. O disco estava pensado para sair em 2018, foi adiado para 2019 e depois, por questões editoriais, acabou por ficar para março de 2020», conta. «Agora teve que ser adiado mais uma vez, assim como o concerto de apresentação no auditório do CCB, que está remarcado para 8 de outubro. Mas esta é daquelas situações em que não vale a pena pensar nisso».

Apresentar o disco online não parece ser uma boa opção para Peste. «Gosto do trabalho ao vivo porque há uma verdade no concerto. Um ator ou um cantor tem que sentir aquilo naquele momento e partilhar sentimentos com pessoas que estão ali em pé à frente dele», explica. «É toda uma simbiose de experiências e uma vivência que não era a mesma coisa se estivesse a fingir que estou a fazer uma coisa ao vivo. Não estou a criticar quem o faz, acho completamente legítimo, agora, no meu caso, acho que não faria muito sentido».

Perguntamos ao vocalista como é que ele acha que as novas gerações reagem à música dos Pop Dell’ Arte e este confessa «que o interesse podia ser maior».

«Muitas vezes as pessoas compartimentam-se geracionalmente, ‘eu ouço esta música porque a minha geração ouve estas bandas, isto já não é da minha geração, não oiço’. É uma atitude que não me parece a melhor. Não me refiro apenas a nós, mas na música em geral».

Depois lança-se num argumento sobre a música feita pelas atuais gerações. «Fico surpreendido por não encontrar nada de substancialmente novo e isso preocupa-me, mas acho que é um sintoma de uma crise social que reflete o que estamos a viver».

Este sintoma de estagnação e de não criar algo original ou novo é um dos temas abordados nas diversas faixas de Transgressio Global. A New Identity fala sobre indivíduos que compram identidades, ou em Style is the Answer, onde o vocalista cita diversos modelos e estilistas, explicando-nos que «num tempo de relativa estagnação cultural, não deixa de ser interessante que a moda seja uma das áreas criativas mais transgressivas», ao contrário da música que antes «era o símbolo máximo da irreverência juvenil».

«[Antes] havia sempre movimentos e correntes, não era só a música que era nova. A atitude era outra. O visual era diferente. A filosofia de vida era outra», diz-nos. «Na altura, a música expressava uma cultura jovem extremamente dinâmica e que se reinventava de pouco em pouco tempo. O que acontece é que no séc. XXI, independentemente, de haver música boa, não surgiu nada de realmente novo. Eu não dei por nada e costumo estar atento».

O desagrado com a falta de originalidade do presente levou os Pop Dell’ Arte a mergulharem em referências do passado para criar algo novo e diferente.

Existem faixas cantadas em línguas mortas. Em Creta, inspirado no poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, Ressurgiremos em Creta, é cantada em português e em grego clássico. Mellitos Oculos Tuos, Iuuenti (poema 48 de Catulo) poema de índole homoerótica de Gaio Valério Catulo, poeta nascido em Verona no séc. I a.C., dedicado ao jovem Iuventus, é cantado em latim. Eγὼ δ’ ἔσοπτρον εἴην é um poema anacreôntico, estilo inspirado pelos temas e efeitos estilísticos do poeta grego Anacreonte (séc. VI a.C.) e também é cantado no grego clássico por João Peste.

«Não temos que estar preso a uma língua», explica. «Não me agrada a ideia totalitária de só termos que cantar em inglês, apesar de não haver problema nenhum se ficar bem feita, mas por vezes é interessante explorar outras línguas e neste caso foi interessante explorar o latim e o grego antigo que era algo que nunca tínhamos feito», num disco que conta ainda com uma faixa cantada em castelhano, El Derecho De Vivir en Paz.

Contudo, os Pop Dell’ Arte não estão a tentar imitar o que se fazia no passado. «Não tentámos fazer música como os músicos teriam feito naquela altura, nós somos músicos do séc. XXI que resolveram pegar em referências do passado para fazer uma coisa do presente», por coisas do passado entenda-se influências da música barroca, clássica, mas também o post-punk (Psycho-Urban-Jungle-Rock) ou a música de intervenção portuguesa (Anonimous).

«O [Transgressio Global] não é um disco virado para o passado, muito pelo contrário, aliás acho que é uma coisa da pós-modernidade esta amalgama de referências e de tempos. Não estamos virados para o passado, é uma opção estética, por estar descontente do presente», confessa.

Este quebrar de barreiras, sejam da linguagem ou de contextos musicais acabam por refletir o tema principal do disco. A transgressão. «Por vezes no vocabulário comum do quotidiano usamos a transgressão como o incumprimento da lei ou das regras, uma transgressão do transito por exemplo, mas isso é o sentido que a palavra foi ganhando, não é o sentido original».

«O disco chama-se Transgressio Global porque quisemos valorizar a transgressão neste disco. Esta palavra vem do latim transgressium, que significa ir para além de, portanto ultrapassar os limites, em termos artísticos e culturais é isso que quer dizer a palavra transgressão».

«Esta atitude é importante e se calhar é um dos problemas das sociedades atuais. Há pouca transgressão, por vezes há contestação, mas não há transgressão e ela é importante porque é um dos motores da história», explica Peste. «É importante que as pessoas transgridam e que não aceitem os limites que lhes são impostos, só isso é que poderá fazer com que as coisas mudem».