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Zangam-se as comadres... por causa das verdades

A polémica em torno dos tweets  de Trump tem sido uma constante, motivada pela relação muitas vezes duvidosa entre as suas afirmações e a realidade dos factos 

 

O Twitter é um canal de comunicação fundamental para o Presidente dos Estados Unidos. Trump é um fervoroso utilizador da rede social, que usa para dar a conhecer as suas políticas, opiniões e desígnios sobre os mais diversos temas, alcançando diretamente uma audiência de mais de oitenta milhões de seguidores. No seu estilo sobejamente conhecido, escreve o que quer e como quer.

A polémica em torno dos tweets de Trump tem sido uma constante, motivada pela relação muitas vezes duvidosa entre as suas afirmações e a realidade dos factos. Foi neste sentido que o Twitter decidiu atuar, sinalizando publicações em que entende ser útil fazer uma verificação dos factos noutras fontes. Apesar do nefasto efeito das fake news ou da impulsividade de Trump, a aceitação desta medida é tudo menos pacífica, questionando-se a sua legitimidade. 
Conceptualmente, as redes sociais são canais abertos a qualquer um. Ao contrário do que acontece num website, há regras de conduta que devem ser observadas – publicações que incentivem à violência ou racismo, por exemplo - sob pena de expulsão. Cumprindo-as, cada um é responsável pelas suas publicações, nomeadamente pela veracidade dos factos. Facebook, Twitter ou Instagram não têm o dever ou o direito de interferir com os conteúdos de cada um, desde que cumpram as regras (apesar de o fazerem muitas vezes). Ao sinalizar um conteúdo, convidando a uma verificação dos factos, o Twitter está a fazer mais do que é suposto. 

Atuando desta maneira, torna-se difícil considerar o Twitter uma rede social. Há um critério editorial, alguém decide quais os conteúdos que devem ser sinalizados, atribuindo-lhes uma qualificação negativa. Este funcionamento legitima a acusação de censura às opiniões dos conservadores. E, ao seu estilo, Trump anunciou a intenção de uma revisão da secção 230 do Communications Decency Act, que iliba as redes sociais de responsabilidades na disseminação de conteúdos nas suas plataformas.

Outro aspeto controverso desta ação é a seleção das fontes para validação dos factos. Não é fácil entender que seja a plataforma a sugerir outros órgãos de informação. Se fosse um utilizador a fazer essa sugestão num comentário, seria perfeitamente legítimo, tratando-se da plataforma, nem tanto. Nas redes sociais é a intervenção dos utilizadores em escala, que valida a veracidade do conteúdo, sendo uma das principais características que as distingue de outras plataformas. Trump questiona as fontes sugeridas. Porém, o seu histórico de relação com os órgãos de comunicação social e alguns jornalistas retiram muita credibilidade à sua crítica. 

A solução encontrada pelo Twitter para combater os factos que não são verdadeiros muda o panorama das redes sociais, definindo um novo papel para as plataformas. E, caso mantenha esta forma de atuar, esta terá de ser de alguma forma regulada, tornando explícitos os seus critérios. Trump vai tentar implementar medidas que permitam uma maior intervenção dos reguladores na atividade das redes sociais, sobretudo ao nível das decisões editoriais sobre que conteúdos publicar. Seguindo este caminho dificilmente continuaremos a ter nas redes sociais espaços de opinião e debate livre. E que fazem tanta falta!