Cultura

Victor Lustig. O caixeiro-viajante que vendeu a Torre Eiffel

Foi um dos maiores trafulhas da História e a sua cabeça fervilhava com moscambilhas. Depois de ter conseguido receber 70 mil francos de um empresário da sucata fugiu para Viena. Depois voltou a Paris e tentou vender a torre outra vez.

Engazopador dos engazopadores, Victor Lustig era um cara de pau maravilhoso e possuía aquele descaramento divino próprio de uma personagem do Eça de Queiroz. A bibliografia disponível é pródiga em elogios: «Count Victor Lustig is one of the great criminal masterminds of all time», diz por exemplo Sebastian C. Prooth num extenso artigo que escreveu sobre ele para um livro contendo a história dos grandes criminosos. Fulano educado, de boas maneiras, insinuante, poliglota, pouco se conhece da sua infância. Nasceu na Boémia, que na altura fazia parte do império Austro-Húngaro, numa cidade chamada Hostinée, a 4 de Fevereiro de 1890, e sabe-se, assim por alto, que era uma fonte ambulante de sarilhos de tal forma que os pais suspiraram de alívio quando o viram tomar o rumo de Paris para estudar na Sorbonne. Victor tinha apenas 19 anos e levou os sarilhos colados à sola das botas como se fossem pastilha elástica cuspida para o chão. Se existe um gene da aldrabice, Lustig seria um caso para investigação profunda. Dedicou-se de corpo e alma ao jogo e às mulheres. Um marido mais ciumento esfaqueou-o na cara e deixou-lhe uma cicatriz para o resto da vida, um risco feio que ligava um olho à orelha do mesmo lado. Não tardou a ficar famoso pelas piores razões: era um trafulha profissional. Ainda por cima com uma marca inconfundível.
Paris era uma terra de oportunidades. Sobretudo para um jovem brilhante que dominava várias línguas e se fazia apresentar junto da alta sociedade como um conde vindo do exótico Leste da Europa. Ninguém adivinharia que, por detrás de toda aquela fachada de fidalgote vaidoso, estava alguém que nascera de raízes humildes. O seu charme era arrasador.

Como insistente jogador de poker, conseguiu um emprego de luxo nas companhias transatlânticas que providenciavam viagens marítimas entre a Europa e os Estados Unidos em navios confortáveis carregados de gente finíssima. Victor esfregou as mãos de felicidade. Era o seu meio: um tubarão atirado para um lago cheio de peixes com colares de diamantes e anéis de ouro. Há que dizer que durante algum tempo pareceu satisfeito com a função. Ganhava boas maquias, fazia batota aqui e ali, enfiava-se nos camarotes de algumas senhoras a necessitarem de companhia nocturna. A vida sorria-lhe em forma de raios de sol e notas de franco. O pior foi quando as nuvens negras da I Grande Guerra taparam o céu. Os enormes barcos em que desempenhava o seu papel de falso nobre transformaram-se em cargueiros ao serviço dos exércitos da França e da Grã-Bretanha,

Com as luzes de Paris apagadas para evitar bombardeamentos da Luftwaffe, Lustig tratou de se pôr ao fresco e instalou-se entre Nova Iorque e Toronto. Foi precisamente no Canadá que conheceu o infeliz Linus Merton, um diretor do Liberty Bank. Na primeira vez que jantaram juntos, roubou-lhe a carteira. Dois dias mais tarde, devolveu-lha justificando-se com conhecimentos que possuía no submundo da cidade. Tinha sempre um jeito especial de se tornar interessante aos olhos alheios. Não tardou em convencer Linus a participar num esquema infalível para ganhar fortunas. Um primo bem situado no universo das corridas de cavalos informava-o de cada vez que havia moscambilha e a vitória de determinado animal era certa. Merton era um tipo ganancioso e também sem grandes escrúpulos. Ficou em pulgas. Até que a informação chegou sobre determinada corrida e determinado vencedor já resolvido. Victor ofereceu-se para lhe fazer uma aposta no valor de 30 mil libras esterlinas. Com elas no bolso, voltou a Nova Iorque sem dar cavaco ao amigo. Estava alegremente um pouco mais rico.

Um negócio impensável!
No início dos anos-20, uma figura como Victor Lustig não era de imediato observada como vigarista a menos que houvesse uma série de boas razões para isso. E, assim sendo, o nosso engazopador-mor ia caminhando por entre os pingos da chuva com esquemas deste género. Apesar de tudo, começou a ganhar algumas antipatias em Nova Iorque pelo que, cauteloso como era, resolveu regressar à sua cidade especial: Paris. Retomou conhecimentos, dedicou-se à vida excitante que surgira no pós-guerra e, num belo dia de Fevereiro de 1925, ao ler uma notícia de um jornal, dentro da sua cabeça soou um ‘clic’ bastante audível. Segundo o artigo, o ex-libris da capital francesa, a Torre Eiffel, estava a degradar-se de forma preocupante e a provocar tantos gastos ao erário público que começava a crescer a ideia de a demolir. Foi como o cérebro de Lustig entrasse em combustão. Começou de imediato a contactar várias empresas de sucata, fazendo-se passar pelo Diretor Geral do Ministério dos Correios e Telégrafos, pedindo orçamentos para a gigantesca tarefa de deitar a torre abaixo. Seguiram-se as cartas, naturalmente forjadas, propondo um encontro entre todos os que, entretanto se mostraram interessados pelo projecto. Os patrões dessas empresas foram convidados para uma reunião numa sala doHotel de Crillon, junto à Praça da Concórdia. Victor confessou-lhes, compungido, que o governo decidira com tristeza que não estava capaz de cumprir a tarefa de manutenção da torre, sublinhando por outro lado que, quando fora erguida, para a Exposição Internacional de Paris de 1889, já se estabelecera que funcionaria apenas de forma temporária. Enredou-os com elogios: eram os mais honestos e mais capazes empresários do meio em toda a França e mereciam, por parte do governo, a maior das considerações. Em seguida, conduziu o grupo à própria torre e apontou, um a um, os danos mais visíveis e preocupantes. Finalmente, convenceu-os da necessidade de manter as negociações absolutamente secretas. Era um assunto muito susceptível. A demolição da Torre Eiffel iria provocar, certamente, um tumulto popular e reacções violentas. Cada um dos convidados de Lustig teria tempo para pensar no assunto e nos contornos do negócio. Um deles, Andre Poisson, já tinha sido marcado como vítima ideal pelo olhar atento de Lustig.Poisson era um homem insignificante mas ansioso por subir as escadas da sociedade parisiense. Dois dias mais tarde, recebeu um telefonema de Victor. Com toda a desfaçatez foi colocado contra a parede: por uma verba de 70 mil francos, o autodenominado Director Geral do Ministério dos Correios e Telégrafos estava disposto a deixar-se corromper e a entregar o negócio à empressa de Poisson. O pobre diabo, que não devia muito à capacidade das meninges, nem queria acreditar. Ultrapassaria toda a concorrência e ganharia, decerto, o respeito dos seus pares. Não demorou mais de dois minutos a dizer «oui!». E mais meia hora para se encontrar com Lustig e forrar-lhe os bolsos com a quantia acertada. Depois foi para casa saltitando de contentamento, com um contrato falso nas mãos, ao mesmo tempo que o parceiro enfiava à pressa umas roupas numa mala e se dirigia à Gare d’Austerlitz apanhando o primeiro comboio para Viena. 

A má ideia de Lustig
Victor Lustig era um homem rico, mas começou a sentir um peso na consciência, algo que nunca até aí imaginara que pudesse existir. Ou talvez não fosse bem uma questão de remorsos e apenas um ataque de pusilanimidade. Todas as manhãs folheava nervosamente os jornais em busca da notícia que divulgaria a bombástica trafulhice de que fora autor. As semanas passaram e, com elas, os meses. Poisson fora, de facto, magnificamente escolhido como vítima do perverso esquema: complexado, de fraco espírito combativo, manteve-se calado como o rato que era. Apresentar queixa às autoridades passou-lhe pela cabeça, mas não foi capaz. Sentia-se demasiado envergonhado pela forma como fora aldrabado a a última coisa que desejava era que tal viesse a público e o transformasse num motivo de chacota.

Então, Lustig voltou a Paris. Com mais empáfia do que nunca.

Os gostos do patranheiro tinham-se tornado requintados. Frequentava os melhores hotéis, comia nos melhores restaurantes, vivia como um nababo até que deu por si a precisar de nova fraude para manter o exibicionista estilo de vida. Talvez o luxo o tivesse amolecido, mas o passo seguinte foi muito mal dado. Resolveu repetir o mesmo esquema e vender a Torre Eiffel mais uma vez. Outro mais avisado teria evitado o risco. Mas, pensou Lustig, se deu certo uma vez, por que não tentar novamente? Mal começou a fazer contactos com investidores do ramo da sucata, houve quem recordasse o nome do intrujão e pôs-lhe a polícia à perna. Victor reagiu com rapidez: num estalar de dedos estava de volta a Nova Iorque, escapando às malhas da justiça francesa. Chegara a altura de enganar o maior número de norte-americanos que conseguisse. E deitou mãos à obra mal desembarcou.

«Les beux esprits se rencontrent», gostam de dizer os franceses. Não foi preciso um esforço muito grande para que, mais cedo ou mais tarde, Victor Lustig fizesse amizade com um tipo perigoso chamado Alphonse Gabriel Capone, mais conhecido por Al. E num repente de à vontade, propôs ao alcunhado Scarface um esquema complexo de burlas sucessivas. Pode ser que Al Capone tenha sentido que a cicatriz de Lustig, parecida com a sua, criara uma empatia genuína. Por seu lado, o mendaz da Boémia sabia bem com quem se estava a meter pelo que tratou da moscambilha com paninhos quentes. Pediu a Capone 50 mil dólares para participar no artifício, guardou-os num banco e esperou. Ao fim de um ano, pegou no dinheiro e devolveu-o ao escroque que dominava o crime de Brooklyn com a desculpa de que não conseguira pôr a engrenagem a funcionar. Capone era um canalha de 628 patas, mas ficou aparentemente agradado com a honestidade do parceiro. De tal forma que mal Victor lhe mentiu descaradamente dizendo que perdera toda a sua parte investida na trapaça, apiedou-se dele e ofereceu-se para lhe emprestar cinco mil dólares para poder aguentar-se.

Emprestar para Lustig era um verbo que se podia conjugar de formas muito diversas. Arranjara uma amante, Billy May, e dois sócios de instintos muito duvidosos, o farmacêutico William Watts e o químico Tom Shaw, ambos do Nebraska, onde levaram a cabo uma tentativa de enriquecerem fabricando notas falsas de dólar. Victor, como cérebro da operação, ficou encarregue de organizar uma rede de distribuição das notas forjadas de forma a inseri-las no mercado da forma mais discreta e alargada possível. Nos cinco anos que se seguiram, milhares e milhares de notas novinhas em folha e tão bem feitas que só se poderiam distinguir pelo número de impressão, atafulharam a economia norte-americana, num fenómeno mais tarde apelidado de Lustig Money. Victor estava no ponto mais alto da protérvia. Não podia sequer imaginar o que lhe estava para acontecer.

Billy May era uma mulher ciumenta a tal ponto que poderia ser a Santuzza de A Cavalaria Rusticana. Quando teve conhecimento dos deslizes frequentes de alcofa do seu amante com a jovem esposa do ingénuo Shaw, despejou a sua fúria num telefonema anónimo para a Polícia Federal que há muito andava de cabeça à roda com o dinheiro em excesso que percorria o país. No dia 10 de maio de 1935, foi detido por falsificação mas, na véspera do julgamento, escapou daFederalHouse of Detention. Foi recapturado 27 dias depois e condenado a 15 anos de clausura na Prisão de Alcatraz, acrescidos de mais cinco pela sua fuga às autoridades. Não chegou a cumprir a totalidade da pena: morreu de pneumonia no dia 9 de Maio de 1947. Na sua ficha, preenchera a parte respeitante à profissão com: caixeiro-viajante.