Internacional

Quem é Derek Chauvin, o (ex-)polícia que despertou a maior onda de protestos raciais em meio século

A polícia de Mineápolis ignorou durante 18 anos o perfil violento de Chauvin. A morte de Floyd serviu de rastilho.

A história tinha atribuído a Derek Chauvin, 44 anos, polícia em Mineápolis (Estados Unidos), um papel secundário, mas, em pleno séc. xxi, basta um telemóvel na mão para acelerar qualquer “efeito de borboleta” – e, não raras vezes, mudar o destino (e até o mundo tal como o conhecemos).

O homem que, no dia 25 de maio, posou durante oito minutos e 46 segundos, impassível, de joelho sobre o pescoço do afro-americano George Floyd, provocando-lhe a morte – ignorando os apelos de Floyd que, por várias vezes, repetiu “I can’t breathe!”, ou, em português, “Não consigo respirar!”, antes de perder a consciência (frase que se tornou slogan dos protestos globais antirracismo) –, está detido na prisão de segurança máxima de Oak Park Heights, a 35 minutos de carro do local dos acontecimentos, acusado de homicídio em segundo grau (o que pode valer-lhe uma pena até 40 anos).

Mas quem é Chauvin? O homem que com a sua ação, símbolo da brutalidade policial, foi imediatamente despedido e despertou a maior onda de protestos raciais nos Estados Unidos desde o assassinato de Martin Luther King, em 1968.

Derek Chauvin trabalhava no departamento de polícia de Mineápolis, estado do Minnesota, há mais de 18 anos e, antes de se cruzar com Floyd, já somava 18 queixas contra si, embora o teor das mesmas não tenha sido, para já, divulgado. O departamento de assuntos internos da polícia de Mineápolis, alvo de (muitas) críticas por ter sempre ignorado as dúvidas em relação à forma de atuar de Chauvin, divulgou até agora que apenas dois casos estão relacionados com questões de “disciplina”.

O histórico de violência do agora ex-polícia é vasto: Chauvin esteve envolvido em vários tiroteios e, em 2006, disparou e matou um homem que, supostamente, estaria armado; em 2008 fez outra vítima mortal, desta vez depois de atingir a tiro um suspeito de violência doméstica; e em 2011 abriu fogo contra um homem que fugia de um tiroteio.

Derek explica que George Floyd, 46 anos, terá sido detido depois de, alegadamente, ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares para comprar tabaco num supermercado. E que resistiu à detenção (sendo, por isso, imobilizado no solo). As imagens captadas pelos telemóveis das testemunhas contam, porém, uma história diferente.

Desta vez, a ação de Derek teve consequências, e não foram elogios – aqueles que os superiores sempre lhe votaram, durante quase duas décadas ao serviço das forças de segurança.

 

Fim do casamento

Derek Chauvin era casado e não tem filhos. Era. Um dia após a sua detenção, Kellie Chauvin, 45 anos, submeteu um pedido de divórcio, manifestando a intenção de mudar de apelido o mais rapidamente possível. Através de um comunicado, Kellie revelou estar “devastada” pelos acontecimentos, manifestando “a sua maior solidariedade” com a família, amigos e todos os que se encontram de luto por Floyd.

Nascida no Laos em 1974, Kellie fugiu do seu país devido à guerra, vivendo num campo de refugiados na Tailândia antes de partir para os Estados Unidos com a família. Foi obrigada a casar quando tinha 18 anos, seguindo as regras da etnia hmong, a que pertence, vivendo uma relação abusiva de que fugiu.

Instalou-se com os filhos em Mineápolis e conheceu Chauvin quando trabalhava nas urgências do centro médico da cidade, quando o então polícia transportou ao local um detido a necessitar de cuidados de saúde.

 

Polícias acusados

Em menos de 24 horas, Derek Chauvin passou por três prisões diferentes do estado do Minnesota, até que as autoridades optaram por uma que pudesse garantir a sua segurança.

Em Oak Park Heights, Chauvin está sujeito a “segregação administrativa”, ou seja, está separado do restante universo prisional – o que normalmente acontece com detidos que integravam forças da ordem ou de elevado perfil criminal, que se tornam alvos dos outros prisioneiros. O acusado até poderia sair em liberdade mas, até ao momento, ainda ninguém pagou a fiança de meio milhão de dólares (446 mil euros) estipulada.

Entretanto, os outros três agentes presentes no momento da detenção (e morte) de Floyd – Tou Thao, Thomas Lane e J. Alexander Kueng –, e que também já tinham sido despedidos, vão ser acusados pela procuradoria-geral do Minnesota por auxílio e cumplicidade em homicídio e por homicídio involuntário.

A família de George Floyd reagiu, mostrando-se satisfeita com as acusações, mas deixando o apelo para a condenação efetiva de todos os acusados.