Opinião

Cuide de si!

Os serviços de saúde existem para servir o cidadão, mas só podem funcionar bem se houver uma colaboração recíproca da população

Num desses dias de confinamento, um meu doente na unidade de saúde onde trabalho telefonou-me para o centro, aparentando alguma intranquilidade ou preocupação. Conhecendo eu bem a sua história clínica, pensei naturalmente que se tratava de um problema de saúde.
De facto, o Sr. Fernando Graça (nome verdadeiro) sofria de várias patologias e fazia medicação regularmente, tendo sido por mim referenciado a outros especialistas, onde também recorria com regularidade. 
Era um doente complicado em termos terapêuticos, sendo necessário alterar frequentemente o tratamento em função dos exames complementares – que nunca, aliás, se negava a fazer. 

Cumpridor nato dos conselhos médicos, homem correto, comunicativo e consciente da sua situação clínica, telefonou-me num dia que nunca mais esquecerei. «Como está o senhor doutor? Tenho pensado muito em si neste tempo de pandemia. Os médicos estão na linha da frente e por isso fiz questão de lhe telefonar». Sempre à espera de que me falasse nas suas doenças e no motivo que o tinha levado a telefonar-me, respondi-lhe da mesma maneira: «Senhor Fernando, conte comigo, estou aqui para o ajudar. Vamos ao assunto…». Porém, quando já tinha na cabeça a sua história clínica, o que iria ouvir apanhou-me completamente de surpresa: «Estou bem. Tenho medo de ir aí com o que se ouve nas notícias… Telefonei-lhe só para saber como é que o doutor estava e para lhe dizer isto: ‘Cuide de si’!».
Deixou-me sem palavras. No regresso a casa, aquele conselho não me saía do pensamento. Interrogava-me acerca do significado da sua louvável preocupação. É muito comum os médicos telefonarem para os doentes a inteirarem-se do seu estado de saúde, mas quando sucede o contrário, tão poucas vezes isso se verifica, que é impossível esquecermo-nos.

Este episódio transporta consigo alguns sinais que, por me parecerem importantes, achei pertinente partilhar. 
Primeiro, percebe-se a boa relação médico-doente, essencial em Medicina Familiar; depois, revela o medo que se apoderou deste senhor, à semelhança do que aconteceu com muitas outras pessoas, em grande parte pelo excesso de informação sobre a pandemia, que acabou por confundir a população e ser até prejudicial. 
As pessoas não devem ter medo de regressar aos poucos à vida normal (possível). Antes pelo contrário: a vida vai continuar, só que de forma diferente. Há novas regras a que todos estamos sujeitos – e é agora uma boa altura para alterar comportamentos e formas de estar na vida que deixaram de fazer sentido. 
Os serviços de saúde existem para servir o cidadão, mas só podem funcionar bem se houver uma colaboração recíproca da população. É fundamental uma nova mentalidade, para que cada pessoa possa gerir de forma correta a sua saúde. Confiar no médico assistente é essencial, pois é a ele que cabe definir o plano de saúde para o seu utente. 
Inverter os papéis – como acontecia no passado, sendo o doente a pedir exames e caminhar para as unidades vezes sem conta, solicitando atos médicos desnecessários, sobrecarregando serviços e impedindo-os de dar resposta – é um procedimento errado, que terá de ser rapidamente alterado. 
Estejamos atentos: hoje foi a covid-19, mas amanhã poderá aparecer outro vírus tão ou mais demolidor, e só um Serviço Nacional de Saúde forte, coeso e bem preparado poderá fazer-lhe frente.

Duas semanas depois do telefonema citado, ao entrar no centro de saúde, recebi uma notícia tristíssima: a mulher do Senhor Fernando informava que o marido tinha partido. Fiquei transtornado. Já não era a reação do médico – era a do homem que ainda há pouco recebera com emoção o conselho de um doente que tanto o estimava: «Cuide de si!».
Senhor Fernando, não me esqueço do seu telefonema e procuro ter o maior cuidado comigo, para poder ajudar os outros. Mas até eu ir ter consigo, um dia, sou eu agora a pedir-lhe: Cuide de mim!
 

(À memória do Sr. Fernando Pinho Graça)