Tautologias

Destruir Hong Kong, travar a China, liquidar a Europa (I)

Como lhe cumpre enquanto Estado soberano, a China irá em breve pôr termo à destruição de uma cidade florescente do seu território nacional.

O que são Hong Kong e Macau? São regiões autónomas da República Popular da China – e territórios com o maior grau de autonomia no mundo (ver os Açores ou a Catalunha).

Ambas dispõem de Governo próprio, Assembleia Legislativa (em parte eleita por sufrágio universal e outra parte por associações representativas da sociedade), sistema judicial independente, forças de segurança próprias, moeda própria.

Não sendo um Estado independente, Hong Kong tem representação e acordos específicos com várias instituições internacionais, relevantes para a autonomia do território. Como é o caso da OMC. O que torna ridícula a represália de Trump de anular o acordo comercial.

Pequim tenta influenciar a região autónoma? Naturalmente há interdependências com o todo nacional: economia e população estão ligadas, como estiveram sempre. O mesmo acontece com Portugal e os Açores ou a Espanha e a Catalunha…

O que era Hong Kong até estar a ser destruído?

Era um dos territórios no topo da lista dos lugares com índice mais elevado de desenvolvimento humano no Extremo Oriente, à frente de Seul.

Com elites altamente qualificadas, que a Austrália e o Canadá sempre quiseram atrair.

Com uma das três praças financeiras mais fortes do mundo e o sistema bancário do planeta onde é mais seguro ter depósitos.

Gozando de liberdades civis e religiosas como em poucos lugares da Terra (o anterior chefe do Executivo é católico praticante).

Com um sistema de ensino público e privado absolutamente livre. Note-se que a Universidade Chinesa de Hong Kong está cheia de professores americanos, sendo hoje o foco reconhecido e tolerado (?) da intervenção ilegal dos EUA no território e na China.

A ‘Lei de Segurança’ agora aprovada pela Assembleia será um novo fôlego para a autonomia de Hong Kong, permitindo à China avançar com a eleição por sufrágio universal do chefe do Executivo.

Segundo o Hoje Macau, esta lei «está prevista no artigo 23.º da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong, mas, 23 anos depois da transferência de soberania, nunca fora regulamentada, em grande parte devido à incompetência dos sucessivos governos da RAEHK  [Região Administrativa Especial de Hong Kong]. Em Macau foi. Agora, face à presente situação, Pequim resolveu dizer ‘chega’ e decidiu tomar a iniciativa».

Mas note-se que a China disse ‘chega’ depois de tolerar durante meses o que nenhuma das nossas democracias permitiria sequer um dia. Olhe-se para o reprimido protesto de meia dúzia dos trabalhadores itinerantes em Lisboa, ou para o que se passa nos EUA, com mortes e 20 cidades em estado de sítio.

Como lhe cumpre enquanto Estado soberano, a China irá muito em breve pôr termo à destruição e saque de uma cidade florescente do seu território nacional.

A China respeitou sempre rigorosamente o estatuto autonómico que quis oferecer à população de Hong Kong e Macau, Que são laboratórios de ensaio, e representam uma etapa no processo de reformas políticas e de reunificação nacional há muito desenhado, de que nada fará o regime chinês afastar-se.